Lucinéia Parra
De Maringá
Aos 72 anos, o padre Ângelo Banki não quer causar transtornos aos familiares no futuro. Já mandou fazer o próprio túmulo no Cemitério Municipal de Paiçandu (10 km a oeste de Maringá), onde é pároco há quase 26 anos. Construído há um mês, falta apenas colocar a data de falecimento e a fotografia do padre.
Descendente de japoneses, Banki diz que decidiu construir o túmulo por precaução. Ele garante que não sente nenhum sintoma de doença grave e que a sua atitude segue uma tradição japonesa. ‘‘Os japoneses não gostam de causar preocupação às pessoas, especialmente aos familiares’’, justitica. ‘‘Estou tranquilo e sereno, mas sei que cada dia que passa a gente tem um dia a menos na vida terrestre e está mais perto da vida eterna’’, diz.
Caprichoso, o padre mandou colocar sobre o túmulo dois vasos com flores artificiais. A limpeza do túmulo também é feita semanalmente por uma senhora. A frase no alto do jazigo foi escolhida em homenagem à Virgem Maria, da qual o padre é devoto. ‘‘Só não mandei fazer um túmulo melhor porque a administração do cemitério não permite. Os túmulos são padronizados’’.
Outra preocupação do padre foi escolher a túnica com a qual será sepultado. ‘‘Vou vestir uma túnica doada pela paróquia em comemoração aos meus 40 anos de sacerdócio, completados este ano. A túnica tem a imagem de Nossa Senhora com o menino Jesus nos braços gravada na estola’’.
O padre tem recebido manifestações de conforto. ‘‘As pessoas me abordam na rua ou na igreja e querem me confortar dizendo que não precisava mandar fazer o túmulo porque vou viver por muitos anos’’, comenta. A longevidade é uma tendência entre os familiares do padre. Os pais morreram com mais de 80 anos. Banki tem três irmãos.
A única manifestação contrária foi na hora de comprar o caixão. ‘‘O dono da funerária disse que não ia me vender o caixão porque ele poderia morrer antes’’. O dono da funerária, Marcio Ronaldo Garcia, diz que achou a atitude meio ‘‘esquisita’’.
‘‘Aqui isso nunca tinha acontecido. Uma vez um senhor comprou o próprio caixão e morreu quatro dias depois. Por precaução, disse ao padre que ele não deveria comprar o caixão antes’’, contou Garcia. Se depender da vontade dos católicos de Paiçandu, o padre vai viver por muitos anos. ‘‘Todo mundo aqui gosta muito dele’’, disse Garcia.

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