Padre divide o altar com a paixão pelo LEC
Das duas, uma! Nas horas de folga ele troca a batina pelo calção e as chuteiras ou então veste a camisa alviceleste - quando o descanso coincide com o horário de um jogo do Londrina - e parte rapidinho para o Estádio do Café ou o Vitorino Gonçalves Dias (VGD), onde sofre como um fiel torcedor do Tubarão.
Assim é a vida do padre Pedro Gonçalves Sobrinho, 46 anos, vigário da paróquia Nossa Senhora do Carmo, no Jardim Shangri-lá, zona oeste de Londrina. Ele nasceu em Bela Vista do Paraíso (40 km ao norte de Londrina) e é padre há mais de 12 anos. Pedro Gonçalves nunca deixou de bater uma bolinha com os amigos, religiosos ou não, e muito menos abandonou a velha paixão que mantém pelo Londrina Esporte Clube (LEC).
Padre Pedro conta que a intimidade com a gorduchinha é antiga, vem da infância. O talento apareceu nas peladas de rua ou nos campinhos de terra da periferia. Tanto que, no começo da década de 70, durante alguns anos ele chegou a jogar na 2ª Divisão do Campeonato Paranaense de Futebol pelo time do Apucarana. Na época, pensou seriamente em apostar na carreira esportiva.
Dorico da Silva...e fé...no altar, dedicação às atividades religiosasMesmo depois que descobriu a vocação religiosa e entrou no seminário, em Curitiba, não foi diferente. Nós tínhamos um time e participávamos de diversos campeonatos. O futebol, portanto, sempre esteve presente, recorda.
Em Cascavel, já ordenado, padre Pedro não perdeu tempo e entrou e jogou, durante muito tempo, no Água Verde Esporte Clube, um dos inúmeros times que participam tradicionalmente pelo campeonato amador da Cidade. Com mais de 40 anos, dividia a bola com a garotada de vinte e poucos anos e não se intimidava.
Em uma das partidas, lembra, estava no banco de reservas, o time estava perdendo e ele entrou em campo somente para cavar um pênalti. Entrei, cavei, e empatamos o jogo. Na sequência, nosso time foi campeão, recorda, com humor.
De Cascavel, padre Pedro passou por um período na cidade de Ourinhos, no interior de São Paulo, onde também jogou no amador pelo tradicional time do Olímpico Esporte Clube. Resultado: foi considerado o craque da cidade e recebeu até troféu pelo ótimo desempenho.
Em 1994, ele chegou a Londrina e há três anos participa dos campeonatos promovidos na sede campestre do Grêmio Recreativo e Literário Londrinense. Tem gente que me vê jogando no clube e fala: Não acredito que você é padre!. Depois se acostuma, diz o padre, que tem uma coleção invejável de troféus - aproximadamente 40 - e medalhas conquistados.
A intimidade com a bola também já resultou em algumas cenas engraçadas. Há dois anos, por exemplo, numa viagem para a Itália, padre Pedro foi apresentado a um grupo de jovens que jogavam bola na cidade de Barleta como sendo o ex-jogador Pedrinho, ídolo do Palmeiras na década de 70.
Para provar, padre Pedro não teve dúvidas: ajeitou algumas embaixadas, equilibrou a bola nas costas, matou no peito e fez outras gracinhas com a pelota, como se diz no futebol. Ninguém duvidou de que se tratava mesmo do velho craque do Palmeiras.
A paixão pelo Tubarão, no entanto, é mais antiga. Vem desde a saudosa campanha do time no Brasileiro de 1977, época em que o ex-jogador e ex-vereador Carlos Alberto Garcia era ídolo na Cidade. Tenho dois irmãos que moram aqui (em Londrina) e por isso eu vinha sempre para cá, para assistir aos jogos no campo. De lá para cá tenho acompanhado o time, explica.
A transferência para Londrina, para assumir a paróquia do Shangri-lá, acabou deixando o padre ainda mais próximo da velha paixão. Sempre que possível, ele veste a camisa do LEC e vai ao campo torcer e sofrer junto com a torcida.
O pessoal liga, dá carona, e quase todo jogo eu vou. E a gente sofre mesmo com os jogos e com a torcida. Só não dá para xingar o juiz, comenta. Como tocedor de honra, o padre já é conhecido da nação alviceleste e ganhou até algumas obrigações - que ele cumpre com o maior prazer. No jogo decisivo contra o ABC de Natal (RN), por exemplo, terça-feira da semana passada, ele esteve na concentração e fez uma oração junto aos jogadores.
Influência divina ou não, o jogo - que decidia uma vaga para um dos quadrangulares da Série B do Campeonato Brasileiro - terminou empatado, foi para disputa de pênaltis e o Tubarão acabou levando a melhor.
Padre Pedro garante que as atividades esportivas, que ele faz questão de manter, e a torcida pelo LEC não atrapalham em nada a vida dentro da igreja. Dá para conciliar tranquilamente. Nunca deixei meu dever religioso de lado e por isso nem abandonei meus fiéis por causa do futebol, informa. Então não há problema.
Sobre a campanha atual do Tubarão no Campeonato Brasileiro, ele garante que está otimista. Só espero que saiam estas três contratações (que estavam sendo negociadas com o Atlético Paranaense). O time está carente mesmo de dois laterais e um centroavante. Mas o resto está bom e acredito até que o time pode ser campeão, aposta. É rezar e torcer.
PERFIL
Nome: Pedro Gonçalves Sobrinho
Vocação: religião (padre)
Idade: 46 anos
Paixão: futebol
Detalhe: quase virou jogador profissional
Conquistas: coleciona troféus e medalhasDorico da SilvaLazer...Padre Pedro Gonçalves, da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, a caminho de um campo de futebol para um jogo com amigosLúcio Horta





