Bruno Turato tinha apenas 11 anos quando decidiu que seria padre. Com apoio, principalmente, da mãe Adele Forin, e do pai Pietro Turato, ele entrou para o seminário em 3 de outubro de 1936, na cidade italiana de Casalserugo, perto de Padova. No último sábado, ele completou 50 anos de sacerdócio, todos dedicados à animação missionária, incentivando a criação de grupos de missões para a divulgação da palavra de Cristo.
O sonho começou a se tornar realidade em 3 de outubro de 1936. Ele nem havia completado 12 anos e já entrava para o seminário, em Grugana, um vilarejo perto da cidade de Merate. Dez anos depois, em 27 de junho de 1948, ele era ordenado na Catedral de Milão pelas mãos do beato-cardeal Idelfonso Shuster.
Detalhista, padre Bruno traz anotadas as datas que considera importante em sua vida: o dia do batismo, da crisma, da primeira comunhão, da ordenação menor, do juramento temporário e do juramento perpétuo. Cada mudança de país ou de cidade também não escapa às anotações. Não poderia ser diferente com a data de sua chegada ao Brasil: 9 de novembro de 1949, no porto de Santos. A viagem de navio durou cerca de um mês.
Paulo WolfgangVocaçãoMissionário, há cinco décadas, padre Bruno afirma: ‘‘A gente nunca fica solitário quando está com Cristo’’A carreira, como qualquer outra, não foi e nem é fácil. ‘‘Mas quando a gente assume um compromisso deve ir até o fim. Para seguir a vocação temos que nos lembrar, todos os dias, que somos padres, temos que fazer orações, assumir compromissos dia-a-dia. Vocação é um compromisso real’’, avalia.
Hoje, padre Bruno é coordenador do centro missionário do Pontifício Instituto das Missões para o Exterior (Pime), localizado em Ibiporã, além de lecionar no Instituto Teológico Paulo VI, de Londrina. Seu envolvimento com o Pime vem desde o início de sua formação. Aliás, ele foi incentivado a seguir o sacerdócio pelos grupos de missionários que chegavam do Oriente a Lissone, perto de Milão, na Itália, onde morava, para dar catequese às crianças.
Filho da classe operária - o pai trabalhava numa fábrica e a mãe era empregada doméstica - padre Bruno se encantou com o trabalho dos missionários e sonhava se ordenar para trabalhar no Oriente, de preferência na China. Mas acabou sendo mandado para o Brasil e chegou à conclusão de que foi melhor assim. ‘‘Naquela época, o comunismo avançava na China e os missionários foram expulsos daquele país. Alguns foram mortos.’’
Antes de chegar ao Brasil, padre Bruno passou um ano no Seminário de Treviso (perto de Milão), lecionando latim e italiano. Quando chegou no porto de Santos, ‘arranhava’ um pouco de espanhol e não sabia quase nada da língua portuguesa. ‘‘No começo foi difícil a adaptação à língua e costumes, que eram muito diferentes da minha terra.’’ Essa dificuldade foi logo superada.
Logo que chegou, foi designado para o Pime de Bragança Paulista (interior de São Paulo), onde reencontrou antigos professores do seminário e ficou dois anos antes de ser encaminhado para Sertanópolis, no Norte do Paraná. ‘‘Quando cheguei aqui, em 51, era tudo muito diferente. Haviam muitas dificuldades. Às vezes íamos a uma capela na zona rural e não conseguíamos voltar, porque a chuva tinha levado a ponte embora. Esta região do Estado ainda estava se desenvolvendo’’, lembra.
Por aqui, padre Bruno ficou apenas dois anos, voltando para o Norte do Paraná somente em 81. De 52 ao início da década de 80, trabalhou em São Paulo, capital e interior. Desde que saiu da Itália, padre Bruno só pode retornar para visitar os parentes e amigos, e fazer reciclagem, 12 anos depois.
‘‘Naquela época era difícil viajar para lugares tão distantes. Do Brasil à Itália levávamos cerca de 20 dias de navio. Depois vieram os aviões bimotores e passamos a fazer o trajeto em 24 horas. Hoje é mais fácil. Com os aviões à jato, chegamos lá em 11 horas.’’ Foi no Brasil que recebeu a notícia da morte do pai - a mãe já havia morrido antes dele sair da Itália. A carta da irmã, avisando que haviam perdido o pai chegou um mês após o falecimento.
A distância, as saudades, as dificuldades de adaptação foram sendo superadas dia-a-dia, com a dedicação ao trabalho. ‘‘A gente nunca fica solitário quando se está com Cristo’’, observa o padre. Se tivesse que começar tudo de novo, ele não hesitaria.
Nestes 50 anos de sacerdócio, o que mais emociona padre Bruno é a participação da comunidade nos trabalhos das missões. ‘‘Sou assistente espiritual do movimento Paz, Amor e Fraternidade (da Igreja Católica de Londrina, envolvendo jovens e casais) e fico bastante emocionado ao ver a participação e conversão destas pessoas à Igreja Católica.’’
Padre Bruno também considera que esteja havendo uma mudança na forma de pensar dos jovens, que hoje buscam mais a igreja e muitos deles despertam para a vocação sacerdotal. ‘‘No Brasil, na verdade, nunca houve numerosas vocações. Grande parte dos padres são de fora. Mas sentimos que hoje essa situação está se revertendo. Estão sendo formados grupos vocacionais nas várias paróquias’’, comemora.
Ele, no entanto, salienta que o fundamento das vocações é a família cristã. ‘‘Por isso temos que insistir na formação de casais, na solidificação da família. A falta de vocação é, muitas vezes, reflexo da crise em que se encontra a instituição familiar.’’
Outro fato que prejudica o encaminhamento dos jovens para a religião, na opinião do padre, é a própria sociedade consumista. ‘‘Ela impede, muitas vezes, que se veja o valor espiritual do homem.’’

PERFIL
Nome: Bruno Turato
Nascimento: 6 de dezembro de 1924, em Casalserugo, na Itália
Profissão: padre
Ordenação: 27 de junho de 1948
Chegada ao Brasil: 9 de novembro de 1949
Inicío dos trabalhos em Ibiporã: março de 1981
Onde trabalha: Pontifício Instituto das Missões para o Exterior (PIME), em Ibiporã
Onde atua: na coordenação do PIME e como professor no Instituto Teológico Paulo VI, de Londrina.Paulo Wolfgang‘Fico emocionado ao
ver a participação
e a conversão das
pessoas à Igreja’Benê Bianchi

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