Érika Pelegrino
De Londrina
Hoje pela manhã, dois possíveis receptores de córneas passarão, por avaliação clínica para considerar as possibilidades de receberem os órgãos doados pelo assistente-técnico Emerson Jackson Von Sherten, 26 anos, em Londrina. Ele sofreu um acidente no dia 1º de outubro, ficou hospitalizado, e morreu na terça-feira. A família atendeu o desejo de Sherten e fez a doação de seus órgãos, que deverão beneficiar cerca de 30 pessoas.
Ontem pela manhã um candidato ao transplante passou por avaliação, mas não tinha condições clínicas para receber a córnea. À tarde, outro paciente também foi avaliado. A coordenadora da Central de Transplantes de Londrina, Elza de Lara, disse que terá uma resposta sobre os resultados das avaliações ainda hoje.
Os familiares de Emerson Sherton autorizaram ainda a doação de fígado, rins e coração. O fígado foi levado para um receptor em Curitiba. Por pouco o órgão não foi danificado. Estava planejado a viagem de Londrina por avião, mas por problemas da aeronave o material foi transportado por carro.
Os rins não puderam ser aproveitados, de acordo com Elza de Lara, porque não foi possível mantê-los funcionando. ‘‘Assim que o rapaz morreu os rins pararam de funcionar, isto é imprevisível’’, explicou Elza.
Com o coração aconteceu o mesmo, podendo ser aproveitadas apenas as válvulas cardíacas. Foram doados, um caso inédito, também tecidos ósseos e fáscia lata (que recobre o músculo das coxa). Elza de Lara explicou que estes tecidos e as válvulas cardíacas são preparados – ficam imersos em uma solução com antibiótico e depois vão para um freezer especial onde podem ficar armazenados por até seis meses – e ficam à espera de pacientes que necessitem deles.
‘‘São os próprios médicos que nos procuram’’, afirmou Elza de Lara. Ela explicou ainda que, no caso dos tecidos e das válvulas, não se trata de transplante, mas implante. Emerson Sherten morreu ao ser atingindo pelo friso (um aro que fica entre o pneu e a roda do carro) do pneu traseiro de um caminhão que estourou.
DoadoresA coordenadora da Central do Transplantes de Curitiba, Ivana Kaminski, afirma que casos em que acontece doações múltiplas não são comuns. Ela conta que, quando divulgados, acabam catalizando ações semelhantes. A coordenadora entende que ainda provocam a discussão entre as pessoas. ‘‘Muitos doadores não expressam a vontade de ser doador para os parentes, que acabem sendo reticentes’’, diz.
Segundo Ivana, a demanda de transplantes é muito maior que os órgãos disponibilizados. Ela considera que a desinformação ainda provoca medo entre as famílias doadoras. Outro ponto que complica a doação é que os hospitais das pequenas cidades não dispõem de estrutura adequada para manter o corpo, enquanto se retira os órgãos. ‘‘Mas, nos hospitais com UTIs, a perda de órgãos é muito pequena nas remoções de pacientes com morte encefálica ou parada cardiáca’’, diz.
(Colaborou Israel Reinstein)

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