O telefone 192 toca. De um lado da linha, um filho desesperado ante a suspeita de que o pai esteja sofrendo um derrame. Do outro, um atendente com um rígido protocolo a seguir antes de cogitar a liberação de uma ambulância. De acordo com os parâmetros do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), o caso não justifica o envio de socorro. A família resolve então procurar um hospital sozinha.
É uma situação comum no dia-a-dia do Samu, implantado há três anos em Londrina. Muitas vezes o próprio paciente constata que seu problema não era tão sério. Há ocasiões, contudo, em que a gravidade do quadro acaba se confirmando mais tarde e deixa dúvidas sobre a triagem de pacientes feitas pelo Samu. Foi o caso do advogado Otoniel Jacinto da Silva, 64 anos, que faleceu no Hospital Evangélico (HE) no último dia 17.
Duas semanas antes, o filho de Otoniel, Diego Martins Silva, 21 anos, tentara acionar o Samu para socorrê-lo. Segundo o jovem, eram exatamente 7h02 da manhã quando ele ligou para o 192 avisando que o idoso estava com dor de cabeça fortíssima - o que era raro - e que aquele podia ser um princípio de derrame, uma vez que a vítima já sofrera dois acidentes vasculares antes. ''Fizeram tantas perguntas que mais parecia uma entrevista de emprego. No final, disseram que eu levasse meu pai no posto de saúde perto de casa. Me recusei. Lá ele ficaria esperando mais uma hora e meia só para fazer a triagem'', declara.
Um vizinho que saía para o trabalho naquele momento se dispôs a levar o advogado para um hospital em seu carro. No Evangélico, Diego diz ter sido informado de que ''o SUS só atende pacientes encaminhados via Samu''. ''Para não perder mais tempo, demos entrada como particular. Se fosse um paciente miserável, provavelmente ficaria na porta'', considera. Mais tarde, o próprio hospital consentiu que Otoniel fosse internado pelo SUS. Ele foi submetido a neurocirurgia, mas o quadro foi se agravando até levá-lo à morte. O atestado de óbito apontou aneurisma cerebral, parada cardíaca e pneumonia.
''Isso prova que não era um caso para posto de saúde'', conclui o filho, que é estudante de Direito e ainda está avaliando se entrará na Justiça. ''Em 25 anos de advocacia, meu pai sempre lutou pelos direitos das pessoas. Nada mais certo do que lutar por ele.'' Otoniel deixou uma viúva, seis filhos e seis netos.
Mesmo com os desdobramentos do caso, a coordenadora do Samu em Londrina, Rosângela Libanori, defende o encaminhamento feito pelo órgão no dia 2 de julho. De acordo com ela, pelos parâmetros do serviço um paciente que estava consciente, conversando e cujo único sintoma era uma forte dor de cabeça poderia passar primeiro por uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
''Ele tinha uma UBS (Vila Casoni) a 150 metros de casa. Lá eles fariam medição de pressão, o médico iria avaliar e nos chamar se fosse necessário'', afirma a coordenadora, observando que os cidadãos precisam ''restabelecer a confiança nos postos de saúde''. Ela enfatiza que, mesmo que o Samu tivesse atendido o advogado, ''não teríamos evitado a ruptura do aneurisma''.
Sobre a entrada do paciente no Evangélico, Rosângela afirma que o hospital é obrigado a atender qualquer caso que chegue até ele e que seja constatado como urgente, mesmo não sendo via Samu. ''Eu não tenho condições de avaliar a gravidade de todos os casos'', admite. Por meio de sua assessoria de imprensa, o HE sustenta que Otoniel já entrou no hospital pedindo atendimento particular. Ao mesmo tempo, garante que casos graves como o dele justificam uma procura direta pelo SUS.

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