Pacientes morrem sem médico em Jacarezinho
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quinta-feira, 01 de fevereiro de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Em Jacarezinho e pelo menos outros 21 municípios do Norte Pioneiro, os habitantes têm que dobrar as orações para nunca sofrer um traumatismo craniano ou um ferimento grave no peito. Motivo: não há neuro ou cardiocirurgiões no maior hospital da região. Os pacientes que dependem desses especialistas têm que aguardar vaga em hospitais mais distantes, como em Londrina. Mas nem sempre dá tempo.
O caminhoneiro José Fernandes de Oliveira, 40 anos, morreu sem receber atendimento especializado. Vítima de um acidente motociclístico no último dia 10, ele passou quatro dias internado na Santa Casa de Misericórdia de Jacarezinho enquanto os médicos do hospital, os patrões e a família lutavam por uma vaga em qualquer lugar do Estado onde houvesse um neurocirurgião.
''A gente fez o que pôde. Enquanto os diretores da Santa Casa procuravam vaga em hospitais, nós ligamos para o promotor e até para a polícia. Nunca vamos saber se ele poderia ter sobrevivido se tivessido sido operado'', afirma a empresária Joana Darc Kuster Azevedo, 39 anos, patroa de Oliveira numa firma de fretamento de Jacarezinho.
A falta de médicos não foi o único problema enfrentado pelos familiares. Eles descobriram que, para fazer uma tomografia, Oliveira teria que ser levado até Ourinhos (SP) porque o hospital local não dispunha do equipamento necessário. Só que o transporte do paciente também não poderia ser feito pelo SUS devido à falta de uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Móvel. ''Conseguimos uma ambulância particular porque o irmão dele era enfermeiro. Mas se a esposa tivesse que pagar, sairia R$ 1,5 mil'', sublinha Joana.
Tantas deficiências são injustificáveis em uma regional de saúde que atende 270 mil habitantes e na qual acontecem - como em qualquer lugar do Brasil - inúmeros acidentes, agressões, aneurismas e outros problemas que podem exigir profissionais especializados. ''Aqui, se alguém leva um tiro na barriga, por exemplo, a gente consegue atender. Mas se o tiro acertar mais para cima, já não tem nenhum médico que possa abrir um tórax'', comentou um funcionário da Santa Casa, extra-oficialmente.
''Com frequência estamos tendo problemas com politraumatizados, com atrasos no atendimento. São pessoas que precisam ser urgentemente atendidas, mas fica-se protelando por falta de vaga'', confirma o diretor-clínico do hospital de Jacarezinho, Sérgio Eduardo Emiygdio de Faria. A instituição possui sete leitos de UTI, todos do SUS (Sistema Único de Saúde), mas é credenciada apenas para atendimento nível 1, excluindo os casos de alta complexidade.
Para ser elevada a nível 2 e ter pelo menos um neurocirurgião, um passo importante seria a aquisição de um tomógrafo, sublinha o diretor. Segundo ele, um deputado da região já apresentou emenda parlamentar para obter recursos para a compra do equipamento, mas não há previsão de quando a negociação será concluída.
''Ou se dá condições para que outros pólos, como Jacarezinho, cresçam nessa área (de atendimento neurocirúrgico), ou que os pacientes possam ser levados imediatamente para uma intervenção onde houver um especialista (mesmo que não haja leitos)'', radicaliza Faria. ''Se Cornélio ou Londrina aceitassem nossos pacientes em tempo hábil, já resolveria o problema. Cérebro não pode esperar. E às vezes um procedimento simples, como uma descompressão, pode salvar uma vida'', completa.
O diretor afirma que a Santa Casa de Jacarezinho ''tem tudo para ser um grande hospital'': espaço para instalação de um setor de tomografia, possibilidade de ampliação de leitos, cozinha com capacidade para suprir o dobro de pacientes da atualidade. ''Falta só um pequeno empurrão'', cobra.
Por mais que esse ''empurrão'' seja tardio demais para o pai de seus dois filhos, a doméstica Sônia Regina Lemes de Oliveira, 36, esposa do caminhoneiro que morreu à espera de um neurocirurgião, engrossa o apelo. ''Se existe um hospital é para salvar vidas, não para deixar morrer. Queremos uma melhoria para que não aconteça com outros o mesmo que aconteceu com ele.''


