Paciente vai para casa depois de 4,5 anos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Depois de quatro anos, seis meses e cinco dias vivendo em uma cama de hospital e cercado de aparelhos, o garoto Pedro Henrique de Carvalho Biscaia - que tem exatamente esta idade - pôde enfim conhecer sua casa. Os pais, os comerciantes Marlei Cristina de Carvalho Biscaia, 32 anos, e Claudemir Camargo Biscaia, 31, viveram ontem uma experiência que jamais vão esquecer. Depois de muita espera, sofrimento e dúvidas, puderam enfim ver o mais novo dos três filhos entrar na casa simples do Jardim Continental (Zona Norte).
Pedro Henrique nasceu em agosto de 2003 com problemas cardíacos e foi submetido a uma complicada cirurgia. Durante o procedimento apresentou insuficiência respiratória, que resultou em problemas neurológicos e, consequentemente, paralisia diafragmática (paralisia do músculo que separa a cavidade torácica da cavidade abdominal). Desde então, Pedro vivia dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), dependente de um respirador. Agora ele continua a depender do aparelho (utilizado por traqueostomia), mas graças a um moderno sistema, que permitiu a instalação de todo o suporte de uma UTI em sua casa, o garoto vai passar a dormir e acordar cercado do carinho dos irmãos e dos pais, ouvindo o barulhinho bom do ambiente familiar.
Sua chegada à residência - cerca de 20 minutos depois de sair do Hospital Infantil - foi cheia de alegria e lágrimas, que brotavam dos olhos dos pais, irmãos e dos profissionais de saúde que acompanharam a mudança. ''Eu achava que ele iria ficar conosco até os 12 anos, quando então seria transferido para a Santa Casa. Esta é mais uma grande conquista da medicina'', disse a coordenadora de enfermagem do Hospital Infantil, Sandra Regina Berto Moreira, momentos antes da saída do paciente mais antigo da instituição. Ao chegar à casa da família Biscaia, Sandra tentava controlar a emoção. Atenta aos movimentos de Pedro, ela deu o parecer certeiro: ''Ele está em fase de reconhecimento.''
Sandra e a enfermeira da UTI pediátrica Ana Paula Fregoneze são capazes de decifrar os pequenos gestos e olhares do garoto. ''Olhar para a UTI e não vê-lo lá dá a sensação de que está faltando um pedacinho, mas ao mesmo tempo é uma alegria muito grande saber que enfim ele está indo para casa'', disse Ana Paula, que se despediu de seu paciente no hospital, com frases carinhosas e olhos vermelhos. Pedro Henrique estava fora da UTI desde a última quarta-feira, quando foi para um quarto e passou a utilizar o novo respirador. Diante dos bons resultados, veio a decisão de levá-lo para casa.
Além da família, Pedro ficará sob os cuidados constantes de uma equipe de profissionais do Sistema de Atendimento Domiciliar (Dom) da Unimed. Quatro auxiliares de enfermagem vão se revezar 24 horas por dia na residência. ''Uma equipe de fisioterapeutas fez treinamento específico em Curitiba para acompanhá-lo a partir de agora. Estamos nos preparando há quase um ano para levar o Pedro Henrique para casa'', revelou o médico Wilson Liuti, responsável pelo serviço.
Depois de um princípio de desmaio e ainda muito emocionada, a mãe do garoto disse estar consciente de que tudo vai mudar na vida da família a partir de agora. ''Não vou mais para o trabalho com meu marido todas as manhãs. Agora vou ficar o tempo todo em casa, cuidando do Pedro e dos meus outros dois filhos'', afirmou Marlei. Ela contou que muitas vezes chegou a pensar que o filho jamais ocuparia o quarto especialmente preparado para ele, com desenhos e fotos nas paredes. ''Foi uma luta muito grande, a gente não sabia como agir, muitas vezes o vimos quase indo embora. Nem sei o que dizer nesta hora, mas sempre quisemos muito que ele viesse'', disse.
O desejo da família estava estampado nas muitas bexigas espalhadas pela casa e nos cartazes feitos pelos irmãos mais velhos de Pedro, Vinícius, de 8 anos, e Gabriel, de 11. Em um deles Vinícius escreveu: ''Pedro, eu estava rezando para você vir para casa e Deus me ouviu''.
Uma primeira tentativa de retirar Pedro da UTI já havia sido feita há dois anos, mas não deu certo. Esta experiência anterior só aumentou a emoção sentida ontem pela família. ''Tinha medo que não desse certo de novo. Até hoje de manhã eu estava com medo que me ligassem do hospital para dar alguma notícia triste'', confessou a mãe. No meio da tarde, porém, Marlei pôde enfim pegar seu caçula nos braços e repetir incansavelmente: ''Esta é a sua casa, meu amor!''
''


