Há dois anos, as visitas semanais a Londrina modificaram a vida de uma família de Uraí (Norte) que participou do atendimento psicológico para crianças e adolescentes com doença crônica de pele, organizado pela Clínica de Psicologia da Uiversidade Estadual de Londrina (UEL). Preocupados com a filha, que nasceu com vitiligo, os pais recorreram ao programa para aprender a lidar com a doença. ''Esta doença é genética, mas também pode se manifestar por motivos emocionais, como aconteceu com a minha filha, que é hiperativa'', relatou a mãe, que preferiu não se identificar.
Ela e o marido se viram ''completamente perdidos'' e decidiram buscar ajuda para impôr limites à filha. ''Por medo de que uma bronca pudesse abalar o estado emocional dela, deixávamos ela à vontade para fazer o que quisesse. Depois do tratamento, passamos a ponderar as atitudes e lidar melhor com ela e com a doença'', contou a mãe.
Vitiligo não tem cura e os pais têm trabalhado para minimizar o problema da filha. ''Ela sempre viveu uma vida normal e no começo não se preocupava tanto com a doença. Eu e meu marido nos abalamos mais. Mas agora ela está chegando na pré-adolescência e tem se incomodado muito com a aparência'', comentou a mãe, confessando que a menina, de 10 anos, só espera completar 12 anos, idade suficiente para fazer um tratamento com uso de laser que irá diminuir os efeitos da doença, que se manifestou principalmente nos pés e mãos.
''Acho o acompanhamento psicológico fundamental tanto para as crianças como para os pais, pois com o passar dos anos as sensações mudam e às vezes dá desespero'', desabafou a mulher, lembrando que a filha chegou a sofrer preconceito dos colegas de classe quando era mais nova. ''Um menino fez graça e precisei ir à escola explicar para a coordenadora que a doença não era contagiosa e depois nunca mais ninguém falou nada.''
Conforme a psicóloga Márcia Cristina Caserta Gon, coordenadora do projeto da UEL, doenças crônicas de pele acometem 5% da população infantil do País. Entre as principais está a dermatite atópica. ''A cada cinco crianças, duas manifestam a doença e, deste total, 70% apresentam os sintomas já no primeiro ano de vida'', comentou Márcia, ressaltando que a psoríase e o vitiligo são mais comuns entre os adultos.
Ansiedade e estresse são comuns entre as famílias, já que as doenças crônicas muitas vezes não têm cura e requerem longo tratamento médico. ''As famílias sempre esperam um resultado, que pode não atender as expectativas'', assinalou a psicóloga. Segundo ela, se o ambiente familiar já é conflituoso, a doença pode ser um fator a mais de estresse.
''Doenças crônicas de pele têm relação com o sistema imunológico e, dependendo do modo como a criança reage ao conflito, o corpo também reagirá como um todo, podendo até piorar os sintomas da doença. É fator psicossomático, relacionado ao emocional'', ensinou a psicóloga.
Segundo ela, por serem doenças visíveis, o preconceito é comum. ''Como a aparência é importante nas relações humanas pode haver uma repulsa e, consequentemente, o isolamento da criança, que escolhe não ouvir as críticas e deixa de aprender a conviver em grupo'', declarou Márcia. Outro aspecto negativo das doenças crônicas está relacionado aos pais, que tendem a questionar sua competência como cuidadores.
''Atender crianças menores é uma forma de ação preventiva. Quanto mais cedo as famílias discutirem o problema, maior será o efeito positivo sobre o tratamento médico'', justificou a psicóloga. Para ela, a tríade paciência, persistência e treino é fundamental nas relações entre pais e filhos com doenças crônicas de pele.
Márcia observou que as famílias que viram o efeito do atendimento psicológico no dia a dia querem aprender cada vez mais. ''Já em casos de dificuldades específicas, o atendimento individualizado é mais produtivo.''
Conforme a psicóloga, depois de buscar ajuda médica para o diagnóstico e o tratamento, os pais devem aprender sobre a doença e explicá-la para a criança. Já para lidar com o preconceito, os pais devem explicar que a doença não é contagiosa e valorizar as características pessoais positivas dos filhos diante dos outros. ''Quando a criança entende, se envolve mais com o tratamento.''

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