No café Senadinho, as atendentes Silvana Aparecida e Ruth Marins sabem da vida de quase todos os frequentadores. Entre um capuccino e um cafezinho forte, elas vão escutando o bate-papo alheio e descobrem que numa ponta do balcão o cliente do banco vizinho trouxe o gerente para restabelecer o crédito. E na outra ponta, um comerciante traz a esposa de seu sócio para uma conversa suspeita. ‘‘Você vai selecionando o que ouve, no meio do barulho da rua e do movimento das xícaras’’, explica Silvana, tendo ao fundo a voz da bilheteira, gritando: ‘‘Borboleta treze!’’
Silvana argumenta que ouve ‘‘sem querer’’. Ela considera que pelo tamanho do quiosque só não escuta quem não quer ou for louco. ‘‘Para nós, ouvir serve para passar o tempo, já que depois a gente fofoca uma para outra’’, diz, apontando para sua colega Ruth. Mas esta fofoca, garante a proprietária do Senadinho, Adriana Rosi, não sai do quiosque. Entre elas, a fofoca da vida alheia vira folclore, transformando os casos esquisitos que acontecem. ‘‘Pelo aconchego do quiosque, as pessoas se sentem à vontade para conversar livremente e também para falar o que querem com as atendentes’’, avalia. Essa liberdade faz com que algumas figuras da cidade realizem verdadeiros teatros.
‘‘Uma vez, veio um grupo de loucos ilustres da cidade, que começou a conversar entre si, mas nenhum falava sobre o mesmo assunto’’, lembra. A conversa foi tão divertida, que todos os outros fregueses começaram a rir. ‘‘Depois de quase 20 minutos de bate-papo, eles se despediram combinando se ligar e voltar’’, conta. Nunca voltaram no mesmo horário.(I.R.)

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