Ouvidos de músico desvendam mistérios
Paulo San Martin Especial para a Folha
No país dos grampos telefônicos, chacinas, sequestros, laudos forjados e da corrupção em quase todos os níveis do poder, um músico decidiu colocar o seu dom de ouvir a serviço da Justiça. No começo, ele era um destes últimos recursos que Justiça e vítimas procuram para encontrar provas, em casos onde as provas são muito difíceis.
Hoje, o trabalho de Ricardo Molina Figueiredo já se transformou em uma referência nacional. Sua façanha mais recente foi apresentar os dois laudos que ajudaram a derrubar a tese do homicídio seguido de suicídio nas mortes de Suzana Marcolina e de Paulo César Farias. Mas sua atuação se tornou conhecida em todo o País, nos últimos anos, em uma infinidade de casos.
Molina, diretor do Departamento de Medicina Legal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), era até dois anos atrás o único especialista em Fonética Forense do Brasil. Agora, graças a ele, alguns novos especialistas começam a surgir no Brasil.
O trabalho de Molina começou a ser conhecido há pouco mais de cinco anos, quando ele nem sequer imaginava que um dia se envolveria com questões deste tipo. De lá para cá, foi decisivo para esclarecer alguns dos inquéritos mais contraditórios e polêmicos da Justiça brasileira.
Foi ele, por exemplo, quem provou que o ministro do Trabalho do governo Fernando Collor, Rogério Magri, não só já havia se apossado de US$ 30 mil como pretendia montar um vasto esquema de corrupção dentro do Ministério. Também graças à análise de fitas gravadas dentro da cadeia onde os policiais envolvidos estavam detidos, Molina conseguiu revelar o nomes dos principais responsáveis pela chacina na Vigário Geral.
Divulgação
Três visões feitas por computador de disparos de revólver calibre 38 mostram que vítima não morreu na sacada do apartamento, mas dentro do camburão da polícia
Há dois anos, provou que houve compra de votos para a aprovação da lei da reeleição na Câmara. A comprovação de homicídio deliberado na ação de policiais na Favela Naval também foi feita por ele. A lista é imensa: provas do envolvimento de Talvani Albuquerque na morte da deputada Ceci Cunha e até a confirmação de que o vocalista Dinho não estava na cabine da aeronave no momento do acidente aéreo que matou os Mamonas Assassinas.
Mas estes são apenas alguns dos casos mais conhecidos analisados por Molina. O Instituto de Fonética Forense e Interpretação de Imagem da Unicamp, criado e dirigido por ele, estuda mais de 80 casos por ano e a maioria nem sequer chega ao conhecimento público. Envolvem desde sequestros de empresários até coloquiais processos de adultério.
O principal trabalho de Molina e sua equipe é o de ouvir fitas gravadas e, a partir delas, identificar por meio de computadores e programas especiais não só as pessoas que falam, mas também sons que o ouvido humano é incapaz de processar.
Antes do surgimento de seu trabalho, fitas deste tipo não tinham o menor valor judicial. Agora, elas não só ajudam a desvendar crimes como podem se constituir em provas decisivas nos tribunais.Especialista em fonética forense coloca o seu dom de ouvir a serviço da Justiça e ajuda a elucidar alguns crimes
Agência EstadoReferênciaRicardo Molina Figueiredo, diretor do Departamento de Medicina Legal da Unicamp: trabalho reconhecidoDivulgaçãoA análise dos sonsEspectrograma mostra sequência de tiros disparados por 3 armas





