Outros tempos
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2002
Marunúbia Barbosa 
Recostada no ponto de ônibus, ela esperava, sem se exasperar, o coletivo linha 202 (Roseira Via Verona), que a levaria para a zona sul. Tinha por hábito não se preocupar muito com o tempo, não se irritava com compasso de espera. Deu para divagar, fechou um pouco os olhos e por instantes se deteve apenas ouvindo os sons à sua volta.
Buzinas insistentes; a mulher que tem na ponta da língua o texto decorado: Já tem passe, dona?; a sirene do Siate, que passa ao longe e avisa da dor de alguém que está distante; o ronco das turbinas de um jato, que vai ou que vem, ela não sabe para onde; as rodas metálicas de um patinete que passou ao lado: de olhos fechados não deu para ver, mas ela podia apostar que era um menino de cabelos ruivos que passava ventando, em cima das duas rodas do brinquedo. Ela, ainda de olhos fechados, aproveitou os momentos de espera e lembrou de outros tempos, quando os sons e a vida eram outros.
Lembrava-se que até há bem pouco tempo, os telefones eram todos pretos, com bocais redondos e cheios de furinhos. Ela era do tempo em que as camas eram recobertas por colchas de chenile e em cima delas havia sempre uma boneca dorminhoca, vestida de macação de veludo. A margarina, que não era cremosa, endurecia quando colocada na geladeira, que era invariavelmente branca. O pinguim, de casaca, enfeitava a geladeira, remetendo à imagem gelada do pólo sul. Nesse tempo, quem morasse na zona rural, esfriava a tubaína do domingo dentro do poço. Descia-se o balde e com todo cuidado a garrafa ia para o fundo, ficando à deriva no balde, aproveitando-se do frescor da água. Também no campo, ao acordar, as pessoas não se surpreendiam com as narinas que amanheciam cheias da fuligem da lamparina de querosone.
Havia mais vagalumes em seu tempo e ela se lembrava de como os apanhava e retinha o briho deles em caixas de fósforo. Ela é do tempo em que as crianças temiam a quaresma, rezavam para o anjo da guarda e recitavam o dedo mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo e mata-piolho. Em outros tempos, as pessoas cobriam os espelhos na hora de tempestades e apelavam para Santa Bárbara quando ouviam o raio cair por perto. As mães, em seu tempo, chamavam por São Brás e agitavam os bebês para cima quando eles se engasgavam. Os comunistas, em seu tempo, eram temidos e se dizia que comiam as criancinhas. Noutro tempo, o mundo era dividido por uma cortina de ferro, as televisões transmitiam, a partir de uma hora da tarde, imagens em pretoebranco. E em pretoebranco também eram as fotografias, e o uniforme dos criados das famílias ricas.
Abriu os olhos de repente, pois chegou o 202, quase vazio e viu que tinha passado pouco tempo. Entrou, sentou-se, e pensou no tempo em que a vida corria mais devagar, e que a felicidade não era tão fugaz.


