OUTRO LADO DA EMERGÊNCIA - Estresse preocupa profissionais de saúde
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segunda-feira, 11 de agosto de 2003
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
De um lado, as dezenas de ramais telefônicos tocam insistentes e em volume generoso. De outro são as crianças chorando, em uma competição acirrada com as sirenes das ambulâncias que chegam, apressadas, trazendo mais trabalho muitas vezes, quando nem vagas há mais. Esse corre-corre já se tornou praxe a quem frequenta as alas emergenciais dos hospitais de Londrina. Mas em tempos de superlotação nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) fica difícil para quem está fora desse complexo sistema perceber que a preocupação não deveria ser restrita unicamente aos pacientes.
Em turnos diários de seis, 12 e até 24 horas, médicos, enfermeiros e auxiliares têm mostrado a cada dia, nos hospitais da cidade, que tão importante quanto a arte de remanejar leitos para diminuir o caos nos corredores com doentes graves tem sido a de manter a calma perante a tensão desse tipo de situação.
Reação do corpo diante da sensação de ameaça (interna ou externa), com a consequente liberação de hormônios que podem acarretar alterações no funcionamento do organismo, o estresse que ataca os profissionais da saúde poderia até ser considerado normal, tendo em vista que são eles que lidam mais diretamente com a dor, a morte e o sofrimento. O foco do problema muda, porém, quando a isso se aliam conceitos como a qualidade de vida e a produtividade de quem manipula diariamente a vida de outras pessoas.
Já perto dos 20 anos de enfermagem, a chefe da Divisão Materno-Infantil do Hospital Universitário (HU) de Londrina, Andresa Sentone, explica que é comum a apresentação de atestados médicos fruto de doenças operacionais causadas pelo estresse, como depressão e cefaléia. ''É uma angústia ver gente entrando para ser atendida e não ter espaço ou recursos humanos e estruturais suficientes para dar conta'', comenta. E essa sensação, afirma, é perceptível na equipe da qual participam, normalmente, profissionais que trabalham em mais um ou em até dois hospitais. ''Há aqueles mais cansados física ou emocionalmente, até porque o enfermeiro também precisa lidar com os sentimentos da família, na ausência de um psicólogo'', completa.
Essa mesma dificuldade foi apontada pela coordenadora de enfermagem do Hospital Anísio Figueiredo (Zona Norte), Maria Aparecida de Freitas. ''Às vezes é preciso mesmo se controlar diante do que ouvimos dos parentes ou amigos dos internados''. desabafa. O motivo para isso, de acordo com ela, é a principal causa de tensão para médicos e enfermeiros. ''Deveríamos atender pacientes de menor complexidade, já que, aqui, a maior parte dos leitos é clínica, ou seja, não especializada. E os que chegam, geralmente, ou são enfartados, ou vítimas de arma de fogo, armas brancas, de traumatismo. A demora no atendimento estressa a família, mas a dificuldade em obter a transferência para o hospital adequado com certeza também nos estressa muito'', diz. No mês passado, quatro pessoas morreram no Anísio Figueiredo à espera de leitos em UTIs. Atualmente, com cerca de 6,5 mil atendimentos ao mês, o pronto-socorro do hospital é um dos mais superlotados de Londrina.
Segundo a chefe médica da UTI Pediátrica do Hospital Infantil, Cristiane Ikeda Bavoso, o auto-controle deve ser a característica primordial de quem quiser se aventurar nesse setor da saúde, devido à minúcia e aos cuidados ininterruptos do atendimento. Por outro lado, ela reconhece que, em alguns momentos mais críticos, é difícil manter afastado o lado emocional. ''Nossa rotina é estressante. Mas nada que se compare a quando nos ligam pedindo vagas, e temos de avaliar qual paciente já internado é o mais viável de sair, para liberar o leito a outro mais grave. Às vezes ficamos duas, três horas para decidir'', confessa. E os sintomas de se manter exposto a tamanha tensão, diz a médica, logo começam a ser percebidos. ''Em alguns casos o funcionário fica mais agitado, conversa mais, o que pode até ser bom, pois ele também se preocupa mais. Em outros, o raciocínio fica mais lento'', relata. E quando detectar isso? ''Quando o barulho do ar condicionado ou o do telefone começam a ser percebidos e a irritar'', compara.
Se o estresse sempre foi marca do dia-a-dia de alas emergenciais, o sentimento de angústia e impotência do profissional frente à demanda por vagas é algo que não parece ter um fim muito próximo. Ao menos essa é a visão da coordenadora de enfermagem do Hospital Infantil, Sandra Moreira. ''Há 20 anos na profissão, tenho visto que só a população aumentou. A estrutura e a quantidade de pessoal estagnaram, e parece que a tendência é que isso piore'', sentencia.


