Ouro Verde era o mais luxuoso do interior
Credenciados pelo inventário, o dia 24 de dezembro de 1952 abre a cortina do Cine-Teatro Ouro Verde o maior e mais luxuoso cinema do interior do Brasil. A data da inauguração nesta reportagem é um lembrete daqueles anos em que Marilyn Monroe e Brigitte Bardot eram símbolos de beleza.
Na tela, a primeira sessão do filme ''Meu Coração Canta'' ficou na história do cinema de linhas modernas, que surpreenderam a sociedade, projetado por João Batista Vilanova Artigas e Carlos Castaldi o primeiro deles um dos mais importantes arquitetos modernistas, autor do conjunto compreendendo ainda a Confeitaria Calloni, e o Edifício Autolon.
Um dos prédios em que Artigas e Castaldi aparecem na pureza geométrica, determinada por um prisma de fachada envidraçada, não ornamentada, mas com esquadrias metálicas e janelas longitudinais, o Edifício América marca o nosso tempo de viagem no relojão. Considerado um dos maiores do país, o relógio mede 6,5 por 6,5 metros e as engrenagens têm apenas 40 por 60 centímetros.
Ao abrirmos novamente a cortina do cinema que em suas últimas sessões não tinha público maior do que 10 pessoas, deixando de exibir filmes em 2002, quando passou por uma restauração veremos na tela os londrinenses praticando o ''footing'' aos domingos na Praça Willie Davids, atualmente tomada de quiosques.
Enquanto isso, o Edifício Autolon respirava o desenvolvimento econômico da época. A planta livre, os pilotis do térreo envidraçados, os brises soleils, o revestimento com pastilhas existentes no Autolon, erguido na segunda metade dos anos 40, se tornaram referência para os edifícios construídos a partir de então. Atualmente, o térreo está ocupado com uma loja de confecções, o subsolo e a antiga Confeitaria Calloni por uma loja de utilidades domésticas. Os andares superiores são salas comerciais.
Apesar do bom estado de conservação do Autolon e do Teatro Ouro Verde, o conjunto foi descaraterizado com a construção de uma edificação na década de 90, onde era o jardim da confeitaria.
O projetor do cinema, aposentado na reforma, agora projeta em nossa imaginação outra cena da Praça Willie Davids num edifício em Art Déco Londrinense de volumetria curva, que abrigou até 1948 a Casa Fuganti, uma grande loja de departamento.
Aos poucos, o corre-corre no magazine das senhoras dos anos dourados, que se vestiam com cinturas bem marcadas e salto alto, enquanto o mundo descobria Little Richard e Chuck Berry até a prova definitiva do surgimento do rock and roll aparecer no fenômeno Elvis Presley, diminuiu. A partir de 1950 o espaço foi ocupado pela Casa de Chá.
O amplo salão de cores claras, móveis finíssimos, luminárias de cristal e fundo musical suave era o reduto dos sofisticados da época, ganhando as páginas da revista da capital gaúcha, ''O Globo'', que pontificou: ''No meio da sujeira e do pó tinha um salão de chá a altura de capital que nem Porto Alegre tinha''.
Em 1977, o imóvel foi comprado pelo Banco Bamerindus e, depois de duas reformas em 1992 e 2002, com o objetivo de restituir suas configurações originais, o prédio passou a ser um dos que fazem parte do roteiro histórico, que está em melhor estado de conservação de todo o conjunto homogêneo da quadra 19. (F.L.)





