"O ser humano é capaz de se adaptar a qualquer coisa." A frase, da professora aposentada
Diginal Carneiro, 42 anos, mostra a realidade enfrentada por pessoas que precisam usar um dispositivo externo para recolher os dejetos orgânicos que não podem mais ser eliminados pelo processo natural do corpo. A abertura, criada por intervenção cirúrgica, é o ostoma e a pessoa que passa pelo procedimento é chamada ostomizada.
Diginal tem duas ostomias. Ela usa uma bolsa coletora para a ostomia intestinal e optou pelo uso da fralda para conter a urina. Ela precisou da intervenção cirúrgica após ter os órgãos responsáveis pela eliminação dos dejetos queimados durante a radioterapia no tratamento do câncer de útero. A aposentada enxerga os ostomas não como problemas, mas sim, a salvação de sua vida. "Eu me adaptei facilmente. Faço de tudo, cuido da minha casa, nada me impede de viver a minha vida", conta.
A ostomia é uma cirurgia que permite criar uma comunicação entre o órgão interno e o exterior para eliminação de urina e fezes. Existem três tipos de ostomias: a colostomia que faz a comunicação do cólon; a ileostomia que faz a combinação do íleo -a parte final e mais larga do intestino delgado-, localizada sempre no lado inferior direito do abdômem; e a urostomia, ou desvio urinário, para liberação da urina.
Uma ostomia pode ser temporária, como em um acidente em que houve uma perfuração -e pode ser revertida- ou permanente. O ostomizado utiliza uma bolsa coletora para recolhimento dos dejetos do organismo. A bolsa, geralmente acoplada a uma placa protetora de pele, precisa ser trocada diariamente. A placa solta-se aos poucos, havendo a necessidade da troca a cada dez dias, aproximadamente.
Nos últimos seis anos, quase 2 mil pessoas passaram pela Associação Paranaense dos Ostomizados (APO), de Curitiba, para pedir orientações logo após ter recebido a intervenção cirúrgica. Grande parte dessas pessoas chega à instituição desinformada, deprimida e com muitos preconceitos.
Para a vice-presidente da APO, Luiza Helena Ferreira Silveira, um fator determinante para a qualidade de vida de um ostomizado é aprender a fazer a troca dos dispositivos sozinho. "Não existe uma idade nem sexo para ter o problema. Existem homens e mulheres, crianças e idosos ostomizados. O importante é aceitar e aprender a conviver com a situação", afirma.
Luiza explica que algumas pessoas têm mais dificuldade em aceitar a condição. "Alguns maridos deixam as esposas por não saber lidar com o problema. Os jovens se desesperam, pensando que a vida acabou. Para alguns homens, a intervenção ainda pode até causar impotência", comenta. Para essas pessoas, não é apenas o peso da bolsa que usam, mas tudo que envolve.
Luiza precisou fazer a ostomia após o tratamento de um câncer no reto. Após a cirurgia de retirada do tumor, mais nódulos foram descobertos, e ela passou por 25 sessões de radioterapia e seis meses de quimioterapia. Nove anos após a intervenção de construção do ostomo, e curada do câncer, a artesã conta que leva uma vida normal. "No início tive medo da rejeição até mesmo de meu marido. Tive que passar por uma série de adaptações. É uma situação que abala muito nossa auto-estima e nossa sexualidade".
A doença que levou Cecilia Branta Moreira, 80, a construir um ostoma foi uma diverticulite. Na ocasião, há nove anos, uma hemorragia poderia ter tirado a vida da atual presidente da APO, que precisou fazer a intervenção após a retirada de uma sonda intestinal. "É difícil aceitar. Eu mesma tinha uma certa repugnância de lidar com as bolsas. Só que a vida continua, de uma outra maneira. Hoje eu me viro, até viajo sozinha pelo trabalho da associação. Só é preciso um pouco de paciência, tanto da nossa parte, como dos outros ao nosso redor", avalia.
Essas são algumas das histórias dos voluntários da APO. Além de acolher os recém-operados com orientações e a colaboração de uma enfermeira, reuniões semanais, visitas hospitalares aos ostomizados e participação de seminários, jornadas e congressos fazem parte da rotina do grupo, fundado há 20 anos, que tem como mote: "seja feliz. Você não está sozinho!".

Serviço

- Associação Paranaense dos Ostomizados
Av. Marechal Floriano Peixoto, 50 - 4º andar, conj. 401, Curitiba
Tel: (41) 3079-5933
www.ostomizados.net
A associação, sem fins lucrativos, levanta fundos com bazares, rifas e doações.

mockup