Ossadas humanas têm que esperar vagas em C.Mourão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de fevereiro de 1997
Sid Sauer Correspondente 
Simone GirotoCemitério lotadoOssos guardados em sacos plásticos esperam gaveta em ossário; sepulturas sem dono são desapropriadasCAMPO MOURÃO - Ossadas humanas de 136 corpos enterrados nos últimos 20 anos no Cemitério Municipal São Judas Tadeu, em Campo Mourão, estão empilhadas em sacos plásticos num pequeno depósito nos fundos de uma capela existente no local. Os sacos estão numerados a caneta e podem ser vistos por qualquer visitante através de uma janela. São restos mortais de pessoas sepultadas em túmulos não adquiridos pelos familiares - a maioria de baixa renda - e que foram desenterrados desde final do ano passado.
Os ossos estão guardados para serem colocados num novo ossário que fica pronto em 10 dias, diz o secretário municipal de Obras e Serviços Públicos, Ademir Moro Ribas. O problema é consequência da superpopulação do único cemitério da cidade. O São Judas Tadeu está lotado e só consegue espaços para novos túmulos com as remoções feitas em sepulturas abandonadas. A legislação municipal que trata do assunto permite a desapropriação de sepulturas em estado de abandono, depois de 10 anos do enterro.
Segundo Ribas, a situação dos desenterrados já foi pior. Até há alguns anos, os ossos retirados eram jogados num fosso nos fundos do cemitério. Agora estamos garantindo um local nos ossários, frisa. As primeiras 200 gavetas do ossário foram construídas no ano passado, mas foram preenchidas rapidamente. As remoções têm sido constantes. Só este ano, a Prefeitura anunciou o desenterro de 439 corpos. Um novo edital com cerca de outros 400 túmulos abandonados deve sair em breve.
O ossário em construção, a exemplo do primeiro, terá 200 gavetas. Só as 136 ossadas que já estão esperando a obra vão preencher 68% da lotação. As 64 gavetas restantes também serão ocupadas rapidamente devido ao ritmo acelerado das remoções. A idéia é ir construindo ossários ao longo do muro do cemitério, explica Ribas.
ReservaA crise de vagas no São Judas Tadeu já dura quase quatro anos, mas se intensificou no final do ano passado. As remoções viraram rotina e passou a ser proibida a venda de túmulos apenas para reserva. Desde então, só compra o terreno quem tem algum morto para enterrar nele. O plano de ampliar o atual cemitério num terreno baldio ao lado, anunciado há cerca de três anos, foi arquivado depois de protestos realizados pelos moradores mais próximos.
A área que receberia a ampliação do cemitério chegou a ser decretada de utilidade pública para fins de desapropriação. Agora, o antigo dono do terreno quer ele de volta para construção de um cemitério particular. A proposta foi apresentada à Secretaria Municipal do Planejamento, que estuda o caso. Há preocupação com quem não tem dinheiro para comprar o terreno. O São Judas Tadeu ocupa uma área de 2,5 alqueires e tem cerca de 15 mil corpos sepultados.


