Ossadas desvendam sumiço de pai e filho
Vânia Moreira
De Umuarama
A costureira Maria de Lurdes Nunes dos Santos, 42 anos, de Cianorte (87 km a nordeste de Umuarama), confessou ontem ter matado o marido José Gomes dos Santos, o filho do casal Paulo Sérgio Nunes dos Santos, 17 anos, e enterrado os corpos no quintal. Os crimes foram cometidos em 1994 e 95. Ontem à tarde, a polícia localizou a ossada de José e parte da ossada de Paulo numa vala no quintal da casa da família, na Rua Solimões, número 1.680, no centro da cidade.
Sábado, a polícia já havia encontrado parte de uma ossada que supunha ser do marido da costureira. Os ossos estavam enterrados a quatro metros de distância da porta da cozinha. Maria de Lurdes estava presa desde sábado como principal suspeita do crime. Ela confessou que a primeira ossada encontrada é do filho e contou onde estava enterrado o marido.
José Gomes estava desaparecido desde janeiro de 1994. A própria mulher comunicou o desaparecimento dele à polícia no dia 8 de janeiro daquele ano. O filho de Maria de Lurdes também desapareceu no início do ano seguinte, mas ninguém estranhou porque ele falava para vizinhos e amigos que iria sumir de casa. Maria de Lurdes nega que Paulo Sérgio tenha descoberto que ela matara o pai dele.
A costureira contou que matou o marido e o filho porque ambos eram violentos e a agrediam com frequência. Paulo Sérgio usava drogas, segundo a mãe, e havia ficado violento como o pai. Ela nega que alguém a tenha ajudado a cometer os crimes. José Gomes foi morto na madrugada de 6 de janeiro de 94. Segundo Maria de Lurdes, o marido estava dormindo embriagado no sofá, quando ela acertou a cabeça dele com um soquete, instrumento feito de cimento para socar terra. Em seguida, cavou um buraco no quintal e o enterrou.
Maria de Lurdes não lembra quando matou o filho. Acho que foi no início de 95, disse. Paulo Sérgio foi morto por volta das 11 horas da noite também com uma pancada de soquete na cabeça. Como o corpo não cabia no buraco, Maria de Lurdes cortou com uma faca de cozinha a cabeça, os braços e as pernas do filho. Ela enterrou o corpo no buraco aberto perto da cozinha. A cabeça e os membros foram enterrados na mesma vala onde estava o corpo do marido. A costureira ainda jogou cal sobre os corpos para se decomporem mais rápido.
Cerca de um ano e quatro meses depois de matar o marido e antes de matar o filho, ela desenterrou o crânio de José, deixou junto com documentos dele perto do Rio Ligeiro e avisou a polícia, alegando ter sido informada por dois rapazes que nunca foram encontrados.
Foi quando a polícia começou a desconfiar dela. A costureira diz que fez isso para que descobrissem logo que ele estava morto. Há dois anos, ela se mudou para outro endereço na Zona 2 e alugou a casa da Rua Solimões. O crânio foi enviado para perícia, mas não tinha elementos suficientes para identificar o cadáver.
Segundo vizinhos, de vez em quando a costureira visitava o imóvel e fazia questão de conferir o quintal. Ano passado, apareceram erosões e ela pediu à prefeitura para aterrar novamente o local. A ossada de José estava a mais de um metro de profundidade.
Foi preciso usar uma escavadeira para localizar os ossos. Vizinhos e amigos negaram que Paulo Sérgio fosse viciado em drogas. Os crimes chocaram os moradores e dezenas de pessoas se aglomeraram em torno da casa de Maria de Lurdes ontem à tarde para acompanhar a retirada das ossadas.
Ontem na delegacia, Maria de Lurdes disse que se arrependeu do que fez, mas demonstrava preocupação apenas em ter perdido o emprego de costureira. Ela diz que precisa sustentar as filhas Solange, 21 anos, e Luciana, 16 anos. Nenhuma das duas presenciou os crimes. A costureira disse ainda que não obteve nenhum benefício financeiro com a morte de José. O casal tinha a casa e pouco mais de R$ 300,00 na caderneta de poupança.
Segundo o delegado Nelson Tavares, a polícia vinha investigando o caso há mais de três anos. O crime só foi elucidado depois que o amásio de Maria de Lurdes, Antônio Ziliani contou à polícia que o marido dela estava enterrado no quintal. Segundo o delegado Nelson Tavares, a costureira mantinha um relacionamento amoroso com Ziliani desde quando era casada.
Depois da morte do marido, chegou a viver quatro anos com ele. Zilliani teria sido traído por Maria de Lurdes e por isso resolveu contar à polícia o que sabia. Tavares investiga o possível evolvimento de Ziliani nos crimes.Costureira confessa ter assassinado marido e filho e enterrado os corpos no quintal; polícia acredita que ela não agiu sozinha
Fotos Vânia MoreiraINVESTIGAÇÃODelegado Nelson Tavares e a ossada encontrada ontemVIOLÊNCIAMaria de Lurdes: agressões do marido e do filho





