Os traços refinados de um operário
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quinta-feira, 12 de junho de 2014
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Londrina São Paulo não parecia um bom lugar para José dos Santos Argolo naquele maio de 1964. Depois de deixar o Sul da Bahia e viajar três dias em cima de um caminhão Mercedes Benz, ele se deparou com um clima estranho nas ruas da maior cidade do país. Eram os primeiros meses de governo militar. Não era aquilo que o operário sonhava quando viu em Ibacaraí um caminhão com uma faixa escrita em letras tortas: "Saída para São Paulo no dia 10". Bastaram 72 horas para o rapaz de 24 anos fazer as malas para o Paraná.
Fã desde criança de filmes de caubói, as imagens que chegavam do Norte do Estado lhe remetiam quase que automaticamente ao Velho Oeste. "Via fotos daquelas charretes da época e comparava com as famosas diligências conduzidas por John Wayne", lembra. Ele cruzou o Rio Paranapanema por Andirá, no Norte Pioneiro. Após alguns dias de trabalho em fazendas de café, mudou-se para Porecatu. Na Fazenda Variante, que cultivava cana-de-açúcar e café, recebeu promoção e se tornou fiscal de produção.
Lá casou-se com Maria José e teve cinco dos seis filhos. A mais nova nasceu em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina), onde ele mora desde 1971. "Quando era moço nunca tinha pensado em deixar meu estado, mas hoje concluo que valeu a pena", analisa. Aos 74 anos, usando uma mesa em um quarto usado como biblioteca, ele coloca no papel as lembranças de sua vida. Fatos como a infância, a briga com o pai e a viagem para o Sul estão presentes nos desenhos. O estilo particular usado no desenho chamou a atenção de professores de arte. Com pequenos e rápidos traços, a ponta da caneta esferográfica dá forma a plantações, construções e personagens.
A professora Marisa Melita conta que se surpreendeu ao ver a qualidade dos desenhos de Argolo. "São muito originais, carregam um traço bem peculiar dele", detalha. As linhas quebradas se enquadram no grafismo, um recurso presente desde as cavernas pré-históricas e que se enquadra em várias correntes artísticas. Autodidata, Argolo segue a máxima: mínimo de elementos com o máximo de sensações. "Já fui aconselhado a fazer aulas para aperfeiçoar minha arte, mas recusei. Tenho medo de perder meu estilo".
Amigo da Onça
A motivação pelo desenho veio das histórias em quadrinho e do cinema, por volta dos 14 anos. "Eu colecionava muitas revistas e comecei a reproduzir. O fascínio era tanto que até a parede do meu quarto ficou toda desenhada". O personagem "O Amigo da Onça", do cartunista Péricles de Andrade Maranhão, na revista "O Cruzeiro" era seu favorito. As batalhas entre mocinhos e bandidos também renderam muitas ilustrações. "Na época não tinha computador, nada de tecnologia. Então, toda a rapaziada ficava vidrada, queria aprender", recorda.
Argolo se orgulha da prole: São seis filhos, 12 netos e seis bisnetos. Ele conta que alguns dos mais novos levam jeito pro desenho, mas não levam a sério. "Hoje em dia tudo é computador. Se não colocar limites, essa rapaziada se esquece até de comer nessa internet", brinca, meio contrariado. Para Argolo, os jovens deveriam aproveitar mais as coisas simples da vida. "Moro aqui do lado do Parque dos Pássaros e vejo que poucos jovens vão lá. Eu dou muito valor à vida no campo, o contato com a natureza".
Amadurecimento
Com o passar dos anos, os temas adolescentes foram dando lugar as experiências da vida. A arte mais recente e ainda inacabada mostra uma lavadeira na beira do rio. "Pode ser o Paranapanema, ou o Rio de Contas. Só depende do momento que quero recordar", diz. O Rio de Contas é o maior rio com toda a extensão dentro do Estado da Bahia e corta Ubaitaba, cidade natal de Argolo. "Cada um tem sua maneira de contar histórias. Eu desenho. Não acho que são grandes coisas, mas me orgulho deles".
Com a modéstia característica a um trabalhador humilde, todos os traços de Argolo estavam fadados a ficarem restritos apenas a familiares. Porém, na semana passada, algumas obras foram expostas no Sarau Cultural, na Biblioteca Municipal de Arapongas. "É uma emoção diferente. Ao mesmo tempo fico feliz e apreensivo", revela. O primeiro passo para Argolo assumir a verve artística se deve à volta aos estudos. Em 2011, ele retomou os estudos no Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Apesar de ter nascido em uma família abastada, largou os estudos aos 9 anos.
No EJA, ele surpreendeu um professor que pediu para que os alunos reproduzissem um quadro do pintor holandês Vincent Van Gogh. "Fiz a reprodução, mas no meu estilo. Ele gostou muito". Para Argolo, voltar a estudar foi um marco na vida. "Não tem idade para retornar à escola. Se eu consegui aos 70, qualquer um pode", incentiva. Argolo pretende agora investir nos desenhos. "Quero comprar canetas próprias para desenho, com pontas menores, para retoques mais precisos", planeja.


