''Há som em tudo'', diz o músico de ouvido experimentado. E se não há, a gente coloca, comenta o jovem, ainda descobrindo um velho novo mundo: ''Esta música deve ser ótima para se ouvir no carro, enquanto se aprecia a paisagem, que passa rápido''. Certos momentos também ficam indelevelmente marcados por trilhas sonoras que neles se incluem com naturalidade, repercutindo em nossa memória quando lembramos. De Ayrton Senna, por exemplo, e a música da vitória, que se transformou igualmente no som lamentoso da despedida precoce.
Mas há os sons corriqueiros do dia-a-dia: o passo cadenciado que segue pela calçada; as vozes esparsas que se confudem pelas ruas; o motor, o arranque, a brecada; a desafinada troca equivocada de marcha, a irritante boca aberta do escapamento mal educado; o ratatá dos consertos e das reformas; o passapassa das pessoas, entremeado do zunzum da fricção das roupas. Porém, nem a suavização desses sons, noite adentro e madrugada afora o silêncio possível nas cidades , é respeitado. O rádio do carro, a uma altura vertiginosa, avança célere pela escuridão, acordando pessoas; as batidas variadas pop, axé, pagode, techno dos bailes, festas, barzinhos, clubes e vizinhos repercutem na cama, nos ouvidos, condenando quem se incomoda a um musicalmente indigesto martírio.
Contudo, na cidade, há sons divinos, daqueles que fazem bem à alma. O badalar dos sinos, próximos ou distantes, convidando ao recolhimento e à meditação; o apelo solitário e pungente do músico de rua; o som monocórdio e infantil do realejo; o sempre bem-vindo trinar dos passarinhos; o coro das cigarras. Esse vem no fim da tarde, metódico e constante. Soa como um alarme, prenunciando a chuva que não vem. Soa como um aviso: olhem, olhem.
O que há para ver, quando a gente se dá conta desse pedido? A calçada esburacada, maltratada, em que se pisa? O lixo que se espalha nos latões à espera do recolhimento oficial? Ou aquele que nunca será recolhido, compondo assim uma paisagem de displicência, tão típica do terceiro mundo? Será que as cigarras pedem que se olhe para isso ou para mais além, para um planeta que se deteriora todos os dias, com precisa invariabilidade? Para o que será que o som das cigarras nos alerta?

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