Quando a filha de Débora (nome fictício) tinha 3 anos, um telefonema mudou para sempre a vida das duas. Após desconfiarem que a criança estava sendo abusada pelo próprio pai, professoras da escola onde ela ficava acionaram o Conselho Tutelar, que entrou em contato com a mãe para denunciar a violência. Apesar de muito pequena, a menina repetiu a mesma história sobre o comportamento do pai para vários profissionais de saúde e assistência social experientes em casos de abuso sexual.
Débora, que também foi abusada pelo padrasto na adolescência, mas não contou com a credibilidade da mãe naquela época, não hesitou em resgatar a filha das mãos do abusador. Desde aquele dia, nunca mais voltou para casa e nem encontrou com o ex-marido, que foi denunciado e preso. Corajosa, Débora manteve o processo até o fim e conseguiu a condenação do pai biológico da filha, que acabou destituído do pátrio poder. Apesar de ter retomado a vida, a mãe vive com medo. "Temo que ele procure a gente quando sair da prisão. Nunca mais tive sossego", lamenta.
A criança não tem lembranças do abuso e não sabe quem é o pai. Tem como referência masculina o segundo marido da mãe e, depois de muita terapia, voltou a viver sem medo. "Quando era menor, ela tinha medo das pessoas, não queria ficar longe de mim. Foi difícil quando voltei a trabalhar", recorda.
Débora conta que jamais desconfiou dos abusos, mas hoje, quando pensa na rotina da família, entende que a filha já tinha dado sinais de que não queria ficar perto do abusador. "Eles ficavam no quarto vendo TV enquanto eu limpava a casa e fazia a janta. Depois de um tempo, ela só queria ficar perto de mim. Os sinais eram claros, mas não percebi", lamenta. Por isso, deixa um alerta aos pais para que observem o comportamento dos filhos e denunciem crimes de pedofilia. "Contar o que aconteceu à polícia me ajudou a tocar a vida", diz. (C.A.)

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