Que paixão é sinônimo de sofrimento todo mundo que já se apaixonou um dia sabe. A ânsia em estar perto do outro o tempo todo, a oscilação de humores e expectativas e todos os sintomas físicos, como suor nas mãos, taquicardia e pernas bambas, fazem parte desse sentimento tão intenso.
Ainda assim, muita gente estranha o fato de a Sexta-Feira Santa, justamente o dia em que se lembra toda a penitência de Jesus até culminar na crucificação, também seja chamada de ''Sexta-Feira da Paixão''. ''A palavra 'paixão', de acordo com definição do Dicionário Cultural do Cristianismo, vem do verbo padecer, significa sofrimento'', esclarece o padre Moacir Calza, do santuário Nossa Senhora Aparecida, da Vila Nova (Região Central), em Londrina.
Em visita à FOLHA, o pároco explicou que o termo religioso foi adaptado para o cotidiano e ganhou um novo sentido, diferente do original, e mais conhecido atualmente. ''A paixão de Jesus é se entregar até as últimas consequências por alguém que se ama, e não exigir nada do outro, como acaba acontecendo na paixão que ocorre em um relacionamento'', compara. Para ele, a paixão como a conhecemos hoje é pautada pelo egoísmo, e, nesse sentido, ela seria inversa ao amor. ''No amor, você entrega a própria vida a outra pessoa. Já na paixão, você quer possuir a vida do outro'', compara.
De acordo com Calza, a Semana Santa tem ''três sinais do profundo amor de Jesus para conosco''. O primeiro deles seria a eucaristia, em que Jesus, na santa ceia, divide o pão. ''Nós não nos sentamos à mesa com qualquer pessoa, mas com alguém que queremos bem. É um sinal de fraternidade, amor e paz.''
A cerimônia do lava-pés seria a segunda manifestação, e traria o sentido da fraternidade, amizade, ''o estender a mão, ajudar-se mutuamente''. ''Ninguém é auto-suficiente. é preciso colocar-se a serviço do outro e vice-versa'', ensina, acrescentando que o terceiro sinal seria o sacerdócio. ''E o jejum é o sacrifício simbólico das coisas materiais para melhor chegar às realizações espirituais. Um atleta tem que se sacrificar e abster-se de algumas coisas de que gosta para conquistar o seu prêmio maior, que é a vitória.''
O padre destaca que, em tempos em que os valores materiais se sobressaem em relação aos espirituais, o que, segundo ele, tem relação direta com o egoísmo que vem pautando a sociedade, sacrificar-se pelo outro pode até não ser um ato muito praticado, mas vale à pena. ''É um caminho doloroso, mas a crucificação vai levar não à morte, mas à vida eterna'', conclui. Ou seja, independentemente das crenças religiosas de cada um, da forma como foram descritas, a paixão humana é uma experiência de vida, e a de Jesus, uma lição.

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