Que a feijoada, um dos mais saborosos pratos da culinária brasileira, foi criada pelos negros a partir das partes do porco que eram descartadas pelos brancos, todo mundo sabe. O que muita gente não deve saber é que também a moqueca surgiu nas senzalas, ''escondendo'' os alimentos mais nobres conseguidos pelos escravos. Estas curiosidades históricas foram ingredientes, junto com carne de frango, ervas e leite de coco, de oficina de culinária africana ministrada ontem à tarde, como parte da programação da XX Semana Zumbi dos Palmares.
Sob orientação da mãe-de-santo Vilma Santos de Oliveira (Yá Mukumby), sete mulheres conheceram um pouco da saborosa herança deixada pelos negros. E aprenderam que moqueca não é apenas aquela tradicional, feita de peixe. Carne de sol, frango, ou mesmo carne fresca podem ser a base para o prato, que necessariamente deve ser temperado com muitas ervas. ''Este era um prato nobre para os escravos, porque preparavam com as comidas boas que conseguiam, como peixes que pescavam e galinhas que roubavam. Para os patrões não desconfiarem, eles abafavam o cheiro com muito tempero e especiarias e escondiam a carne sob muito tomate, cebola e pimentão'', explica dona Vilma.
A técnica era infalível. Quando um senhor de engenho resolvia dar uma incerta na senzala, jamais desconfiva que dentro da grande panela repousava um manjar dos deuses. Para acompanhar a iguaria, os escravos costumavam fazer o acaçá, um tipo de bolo feito de creme de arroz envolto em folha de bananeira.
Na oficina de ontem denominada Ilê Ageum Dudu, ou Casa de Comida Negra não teve acaçá, mas teve arroz com leite de coco, pirão e molho picante. O sabor e aroma especiais ficaram por conta das ervas frescas, colhidas no quintal da casa que abriga o Centro de Oficinas da Mulher, onde foi realizada a oficina.
Para a economista doméstica Maria Inez Passini Lima, que é de origem italiana, conhecer as curiosidades do prato imprimiu-lhe um sabor especial. ''Eu não tinha idéia que os negros faziam moqueca assim. Saber que é possível usar todos estes ingredientes foi muito interessante.''
A cozinheira Lucimara Pereira de Aguiar também gostou de conhecer um pouco da história da culinária afro-brasileira. ''Amanhã mesmo vou fazer a receita em casa'', garantiu.

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