Os R$ 78,00 que viraram BO
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terça-feira, 28 de janeiro de 1997
Paulo Briguet 
Ivo AkioO IBGE contou 412.894 habitantes em Londrina. Não é certo que tenha chegado ao barraco de Armando Seiboth, lá nos fundos do jardim Olímpico. Mas podemos deixar de lado, por algumas linhas, o caso dos outros 412.893 londrinenses. E pensar no caso de Armando.
Os números do Armando são bem mais modestos que o do IBGE. Ele diz ter uma esposa, três filhos, o último é de colo. Identifica-se como operário da Frente de Trabalho Municipal. Para capinar e limpar terrenos pela Cidade, além de fazer serviços gerais, ele não tem carteira assinada. Não desconta INSS. Recebe exatos R$ 78 a cada 15 dias, isso quando a Prefeitura não atrasa o pagamento. Mas na última sexta-feira Armando recebeu.
Aí começa a melancólica história desse 412.894º habitante de Londrina, contada por ele mesmo, acrescida de alguns números sobre sua vida. No ônibus, de volta para casa, Armando fazia cálculos de cabeça. Havia comprado, por R$ 100, um pouco de madeira para construir uma casa melhor que o barraco onde vive. Armando pensou em pagar uma parte da dívida com os R$ 78. O restante poderia usar para comprar coisas assim como o almoço do próximo dia.
Armando estava passando pelo jardim Olímpico. Ainda poderia estar refletindo sobre números. Por exemplo: há quatro meses ele mudara para aquele assentamento, na esperança de fugir dos R$ 100 de aluguel.
Com esses algarismos, quem sabe, passando pela cabeça (quatro meses, R$ 100, R$ 78, três filhos), o operário viu-se na frente do bar. Veio de novo um número - três. A quantidade de pessoas para quem ele precisava telefonar.
Armando entrou no bar daquela rua para comprar as três fichas. Mas um outro esperto trio já o observava. Ele pagou o dono do bar com as últimas moedas do fundo financeiro mais antigo - o bolso da frente. Só que dois homens chegaram perto e seguraram Armando. Uma terceira pessoa - mulher, garante o operário - se ocupou em limpar os R$ 78 do bolso de trás. Antes que ele pudesse reagir, o trio malandro desapareceu. Eu sei que não deveria estar andando com tanto dinheiro no bolso, mas sabe como é, lamenta.
Com parte dos bens que lhe restavam - uma das fichas telefônicas - Armando ligou para o número 190. Foram minutos lentos de espera. A polícia chegou ao jardim Olímpico, e não podia fazer muita coisa. As pessoas conheciam o trio que roubou o operário, mas não queriam denunciar ninguém, por medo de represália. Para o Armando, sobraram duas fichas. Mas para quem ele iria ligar mesmo? O operário esqueceu. E tudo virou mais um número chamado Boletim de Ocorrência.


