Os pais de nossos pais
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de julho de 2001
Maranúbia Barbosa 
O calendário marca o dia das mães, dos pais, das crianças e dos namorados. Essas datas dificilmente são esquecidas pelas pessoas, mas pouca gente deve lembrar que hoje é o Dia dos Avós. Ter avós vivos é um privilégio que muitos têm, alguns sabem e poucos usufruem.
Os avós, normalmente, são mais condescendentes com os netos do que foram com os filhos. Talvez, em função da experiência de vida que eles acumularam, queiram reparar erros ou acrescentar sentimentos e ações aos filhos dos filhos. O tempo, que para os mais jovens, é curto, sobra para os avós. Nunca falta a eles tempo para contar história para os netos. Hoje, no Dia dos Avós, é dia dos netos contarem a eles como é bom tê-los juntos na família.
Quem tem ou teve avó deve se lembrar dos vasos de antúrio intocáveis e também dos chinelos de couro, que ela não se intimidava em usar para os traquinas que beliscavam e arrancavam as flores do vaso. Quem tem ou teve avó morando na zona rural, vai se lembrar, como se fosse agora, dela tirando os grãos de milho dourados do avental e jogando para as galinhas. Com certeza, não se esqueceu dela recolhendo os ovos dos ninhos e curando as verrugas dos pintainhos. Deve ter ficado também na memória a forma com que ela matava as galinhas, cortando o pescoço das aves e recolhendo o sangue em uma tigela. Enquanto as galinhas estrebuchavam e davam vários saltos, levantando poeira e arrancando penas, a avó metia medo nas crianças, que observavam, apavorados, a cena, de atrás da goiabeira. À noite, ao redor da mesa, a mãe, o pai e os netos eram servidos pela avó. Ao provar a galinha ao molho pardo, eles já haviam esquecido os requintes de crueldade utilizados pela avó. Ela, soprando as brasas do fogão e passando o café no velho coador de pano, parecia terna como nunca deixara de ser.
Quem tem ou teve avô vai se lembrar dele vendendo bilhetes de loteria e guardando sempre na algibeira alguns trocados para os netos. Era ele, diziam os pais, que estragava as crianças com os mimos que lhes satisfazia todas as vontades. Poucos devem ter esquecido do avô descascando laranjas com o canivete e oferecendo aos filhos dos filhos. Como não lembrar do pião feito por ele, da careca reluzente e do dente de ouro, que brilhava a cada vez que sorria. O avô, para os netos, trazia na boca o brilho de uma mina inteira. Era na frente dele que os netos se engalfinhavam, faziam fila, estendiam as mãos e esperavam ele recitar: mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo e mata-piolho.
Hoje, Dia dos Avós, quem os têm, quem os teve, quem nunca os conheceu, quem quis amá-los e nunca pôde dizer, quem os levou para os asilos, quem os enterrou e os esqueceu, têm oportunidade de dizer: foi bom tê-los como pais de nossos pais.


