Os olhos de Bruna enxergam o aceno do presidente Lula
A mensagem no esforço de prefeitos paranaenses em ganharem sua fatia no Fome Zero é explícita: ''Podemos não ser Nordeste, mas aqui tem fome, sim''. A prefeitura de Ponta Grossa estima que a cidade tem 24 favelas com população acima de 50 famílias, e 200 outras com menos de 50 famílias. Em Londrina, o Jardim Monte Cristo, na Zona Leste, é reconhecido como um bolsão de miséria.
Arnaldo Marinho Ferreira vive no bairro há oito meses com a mulher, Tânia Mara da Cruz, e os filhos André, 13 anos, Bruna, de sete, Ingrid, quatro anos, e John, de um ano e oito meses. Há poucos meses, a casa acanhada de dois quartos ainda tinha luz. ''Mas a gente pagava R$ 40 por mês, não dava mais. Preferimos tirar'', diz Arnaldo. Rede de esgoto, nem pensar.
Arnaldo está desempregado há três anos. Sua mulher não trabalha. A única ajuda vem na forma de uma cesta básica, mas até ela vem rareando. ''Não veio este mês, não sei porquê. Parece que teve alguma coisa a ver com a mudança de governo, sei lá'', afirma Arnaldo. André é o único das quatro crianças que está na escola. Não recebe Bolsa-Escola porque não se inscreveu.
Num final de tarde, Tânia prepara no fogão à lenha o jantar: arroz, feijão, um pouco de macarrão e carne moída, o luxo do dia. ''Tem um sujeito de um açougue que nos ajuda, sempre me diz para passar lá que nos dá alguma coisa. Apareço de vez em quando. A gente vai vivendo assim, um vizinho ajuda, um parente. Às vezes, consigo uns bicos, que são difíceis de arranjar. Mas até que não estamos numa situação tão ruim assim. Tem gente sem família que está pior'', explica Arnaldo.
As refeições raramente passam do arroz com feijão. Por vezes, nem chegam a isso. ''Ah!, já ficamos muitas vezes sem ter o que colocar na panela. Às vezes fica difícil, falta mesmo, né? Já passamos uns fins de semana aí em que não teve nada, e ficou complicado de verdade. Não tem jeito, passa fome'', explica o chefe da família.
Quando o repórter comenta que o novo presidente preferiu privilegiar num primeiro momento o Nordeste para o programa Fome Zero, Arnaldo adota um tom apaziguador. ''Lá (no Nordeste) é triste mesmo, mas ele podia olhar pra cá, não é? Londrina está precisando, tem que dar um crédito pra gente. A cidade ajudou a eleger o homem (Lula)'', explica. Alheia à conversa dos adultos, Bruna ''pesca'' uma palavra: ''Lula? Eu vi o Lula na tevê. Ele acenou pra mim''. Frase que poderia adquirir duplo sentido.





