Os meninos e a chuva de verão
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2002
Silvana Leão Reportagem Local 
Era uma tarde de sábado, destas quentes e abafadas, típicas de verão. A mãe, sem outra opção, resolve cumprir sua sina de dona-de-casa/profissional liberal e, devidamente munida de seus pimpolhos, parte para o supermercado. No caminho, cabeça ocupada com os pensamentos de sempre: Como fazer com que o dinheiro seja suficiente para tantos danoninhos e bolachas recheadas? Onde achar ânimo para administrar a inevitável briga pelo carrinho de supermercado em forma de automóvel? E as filas, como manter a calma nas benditas filas do caixa?
Distraída e desanimada com o programa que tinha pela frente, ela freou mecanicamente no semáforo. Percebeu que o tempo estava mudando repentinamente. O ar parado tinha dado lugar a um ventinho bom, daqueles que antecedem as chuvas rápidas da estação. Mal percebeu que ao seu lado um outro carro, menos convencional, esperava pelo sinal verde. Notou que no banco de trás os pequenos ficaram quietos e se puseram a observar, encantados, a alegria contagiante dos dois condutores. Carrinho lotado de papelão, pés descalços, cabelos ao vento, eles eram a própria imagem da satisfação.
Mas satisfação com o quê?, pensou ela. Os garotos deviam ter 12, 13 anos, e já tinham a responsabilidade de catar material reciclável pelas ruas, provavelmente para ajudar no sustento da família. Ela ficou imaginando, naqueles poucos segundos antes de abrir o sinal, a dura rotina daqueles meninos. Muitos irmãos, comida pouca ou nenhuma, cama sempre dividida com os caçulas, excesso de privações, sonhos despedaçados. Mesmo assim pareciam tão felizes desafiando o perigo das ruas, driblando os carros apressados. Eles conseguiram prender a atenção de mãe e filhos. Os dois irmãos, acostumados às limitações do apartamento e às diversões de shoppings, se maravilhavam com tanta liberdade.
De repente o inevitável aconteceu. Os grossos pingos de chuva molharam os papelões e mais uma vez lavaram a alma dos garotos. Eles esperavam ansiosos pelo sinal verde, imitando o som do motor de um carro potente. Quando o semáforo finalmente liberou a passagem, partiram correndo e pulando, saudando a chuva em algazarra. Um ia na frente, guiando a condução improvisada, o outro atrás, ajudando a empurrá-la. Devia estar pesada para o porte físico de ambos, mas eles nem ligavam.
Enquanto seguia seu destino, a mãe olhou mais uma vez para a dupla de meninos. Pensou em como pequenas coisas, imperceptíveis para alguns, podem dar tanta alegria a outros. Ela, temerosa das gripes e dos perigos do trânsito, nunca deixara seus filhos correrem pela chuva, quanto mais numa via movimentada como aquela. No entanto, aqueles garotos, sem direito a quase tudo, tinham um grande trunfo nas mãos. Eles tinham liberdade irrestrita, e estampavam no rosto o prazer que sentiam em fazer uso dela.
A mãe entrou no supermercado pensando nisso, e em como precisava aprender a valorizar as coisas simples da vida (o cheiro da chuva que sentia naquele momento, por exemplo). Por via das dúvidas, porém, não perdeu os filhos de vista um só segundo, por mais que eles quisessem correr e pular, sozinhos, em meio às mercadorias.


