No campinho improvisado em uma pastagem, Jossiel interrompe meio a contragosto o jogo de futebol para falar com o repórter. Bola de plástico debaixo do braço, senta-se na grama ao lado dos três companheiros de brincadeira.
Milton Dória- Você sabe quem foi o Ireno Alves, Jossiel?
O loirinho, bochechas avermelhadas pelo sol da tarde, abaixa a cabeça, pensa um pouco:
- Ih...esqueci. - diz, com um sorriso tímido.
Jossiel Cristiano Palma, 8 anos, é uma das cerca de 5 mil crianças e adolescentes que vivem no Assentamento Ireno Alves dos Santos, o maior do País e um dos orgulhos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Se tudo der certo, uma área de 26,8 mil hectares, antes conhecida como Fazenda Pinhal Ralo, no município de Rio Bonito do Iguaçu (centro-oeste do Paraná, a 387 km de Curitiba) vai se tornar um incontestável exemplo dos resultados positivos da reforma agrária.
A área foi ocupada em abril de 1996. Hoje, 900 famílias já estão assentadas em lotes que variam de 12 a 17 hectares. Mais 650 aguardam a divisão das terras. Os pais de Jossiel e os de seus pequenos companheiros de futebol, Maikon, Michel e Waldemar, fazem parte do primeiro grupo.
O campinho onde os meninos brincam fica ao lado da principal escola do assentamento. É uma recente construção de alvenaria, bem equipada, melhor que muitos estabelecimentos escolares das cidades brasileiras.
A diretora, Elizete Bavaresco, 25 anos, explica: o prédio foi construído pela Prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu, que também fornece material didático, merenda e mantém os professores.
Milton DóriaInformaçãoNa escola, alunos assistem vídeo que narra a história do MSTO prefeito Leonel Schimit é do PMDB. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra tem afinidades com o PT. Como agradar agradar os dois lados? Elizete responde com tranquilidade:
- Deixamos de lado as questões ideológicas e trabalhamos para as crianças. Não sou filiada ao PT, nem conhecia o MST antes de começar o trabalho no assentamento, há quase dois anos.
Elizete admite que o MST tem interesse em ‘‘uma educação diferenciada, político-pedagógica’’, mas assegura que seu objetivo é simplesmente ‘‘uma escola de campo, para filhos de trabalhadores rurais’’, como a circunstância exige.
- Muitas destas crianças estão passando por um processo de readaptação. O grupo é bastante heterogêneo, mas boa parte vivia na periferia das cidades, em favelas. Muitas eram totalmente excluídas, não tinham acesso a quase nada e precisam de um trabalho de resgate dos valores morais.
Milton DóriaRegressoDepois das aulas, o longo caminho de volta para casaNa escola dirigida por Elizete Bavaresco estudam 220 alunos, da primeira à quarta série. Em uma das salas, crianças assistem a um vídeo que aparentemente narra a história do MST. Em outra, o professor deixou no quadro-negro uma frase da lição do dia: ‘‘Era uma vez dois meninos, Emílio e Evaldo, que resolveram fazer um passeio pelo campo para visitar as belezas que o mesmo apresenta’’. Pelas janelas de uma terceira sala, ouve-se o alegre e ritmado coro infantil: ‘‘Uma minhoquinha/ Fazendo ginastiquinha/Duas minhoquinhas/Fazendo ginastiquinha...Cinco minhocões/ Fazendo ginasticão...’’
No assentamento funcionam mais cinco escolas, instaladas precariamente em barracões de madeira. Uma delas fica praticamente ao lado da escola-modelo. Os estudantes, aqui, são adolescentes e pré-adolescentes, cursam da quinta à oitava série. Um grupo assiste vídeo que mostra aventuras de uns tais de ‘‘sufistas ninja’’. Não fosse puro lazer, o filme poderia servir como exemplo negativo numa aula de crítica cinematográfica.
No recreio, adolescentes comem pipoca e fazem algazarra. Um garoto moreno, de boné vermelho, diz que estuda de manhã, mas está na escola para aproveitar a reposição de aulas. Na casa onde mora, conta, tem um aparelho de TV, que funciona graças a uma bateria. Por isso só é ligado com algum critério.
- A gente vê principalmente o jornal e filmes.
- E o programa do Ratinho?
- De quem?
Adair Pereira tem 15 anos, mora há dois no assentamento e, além da escola e da TV, gosta de futebol.
- Bola é a principal diversão. Antes a gente jogava bastante, mas agora ficou mais difícil. Os times se separaram, as pessoas moram longe umas das outras.
‘‘Antes’’ é o período entre a invasão e a divisão dos lotes, logo que os sem terra assumiram o controle da área e as famílias ficaram todas acampadas em volta da antiga sede da Fazenda Pinhal Ralo - hoje, sede do Assentamento Ireno Alves dos Santos. Num campo de terra batida, eram disputados animadíssimos torneios de futebol, que atraiam inclusive equipes amadoras de Rio Bonito.
Enquanto Adair vai falando, três meninas se aproximam, curiosas. São bonitas e animadas. Vestem calças jeans e blusas coloridas. Andam para lá e para cá, como se estivessem interessadas em algum menino.
Uma loirinha, de sardas no rosto e camiseta do Palmeiras, parece ser a mais desinibida. Chama-se Lucinéia Malvassat, tem 17 anos (se dissesse 14 ou 15, ninguém duvidaria), já morou no Mato Grosso e em Cantagalo, município da região.
á- Se tenho namorado? Eeeeu não!
O barraco onde Lucinéia mora fica a cinco quilômetros da escola. Parte do trajeto é percorrida deônibus (há dois veículos deste tipo, para transporte escolar gratuito). Outra parte, cerca de mil metros, a pé. Ajuda os pais na roça ou em casa. Quando está ‘‘de folga’’, brinca de ‘‘jogar pedrinhas’’ com uma prima de 9 anos. O recreio acabou. A turma, bem-humorada, retorna ao barracão.
Às 17h10, terminam as aulas. Os alunos se dividem: alguns vão embora caminhando, outros entram nos ônibus. Ivanilde Orcheski, morena clara de 17 anos, vive no assentamento há sete meses. A família está aqui desde o início. Ela morava com parentes em São João do Ivaí. Diz que às vezes sente saudades dos amigos que deixou na cidade, mas prefere ficar ao lado dos pais.
- Um sonho? Estudar e me tornar professora.
Os ônibus partem levantando poeira na estradinha. Pela janela,
as crianças observam os casebres de lona, as roupas coloridas nos varais, árvores sendo derrubadas, o campo sendo preparado para o plantio, tratores e homens trabalhando. No meio do caminho, um trecho ruim: a depressão do terreno impediu escoamento da água da última chuva, formou-se um buraco no barro. Os ônibus passam devagar (à noite, um caminhão carregado de toras tombaria naquele lugar).
Ao longo da estrada, os alunos vão desembarcando, quase sempre em grupo. A aproximadamente sete quilômetros da escola, descem Kléverson (7 anos), Marciano (10 anos), Lucas (7 anos), Camila (7 anos, irmã de Lucas) , Tânia (11 anos), Daniela (10 anos) e a prima dela, Toninha, que foge envergonhada quando percebe a presença do fotógrafo. Depois volta.
- Seu nome é Antônia?
- Não. É Toninha mesmo - diz a moreninha de cabelo liso, curtíssimo.
- Quantos anos você tem?
- Nove.
Daniela intervém:
- Ela tem doze, mas o registro está errado.
Toninha fica envergonhada outra vez.
Seguem a trilha mal delineada, ao lado do matagal que esconde um grande brejo. Vão contando histórias:
- O Marciano cortou o pé ali outro dia.
- Lá onde a gente morava era muito coberto de mato e minha mãe vivia ficando doente. Agora ela está boa.
- Quando a gente morava em Foz do Iguaçu, sempre entrava ladrão na minha casa. Aqui é mais sossegado.
As moradias são quase todas improvisadas. Metade de madeira, metade de lona, cobertas com telhas de amianto. O banheiro é uma casinha, também cercada por lona preta. A primeira casa é a do Marciano. A mãe dele está plantando feijão, não muito distante do barraco. O menino fala com ela rapidamente e decide acompanhar o grupo, só por farra. Duas casas depois, há uma travessia complicada. Para cruzar o brejo, as crianças precisam caminhar sobre uma pontezinha insegura, que mais parece uma escada - na posição horizontal - de aproximadamente 50 metros.
- Se cair, afunda até a cabeça - avisa Marciano.
- Esse piá é mentiroso - diz Tânia.
A menina reside no fim da trilha, mas acaba enroscando na penúltima casa, onde moram as amigas Daniela e Toninha. Logo estão brincando com os cachorros e um papagaio, que não se cansa de repetir ‘‘dá o pé louro.’’
Começa a escurecer. Ouve-se o canto derradeiro do quero-quero no campo. Aumenta na várzea o som do coaxar dos sapos e os piados das saracuras e dos urús.
A esta altura, na sede do assentamento, o armazém da Coagri (Cooperativa do Movimento dos Sem Terra) acaba de fechar as portas. Ali, vende-se de tudo um pouco: botas, alcochoados, frutas, leite em pó, iogurte, doces. É um mini-mercado. Tem até um freezer vertical de produtos da Coca-Cola. No mesmo barracão, dividido por uma parede, funciona a Coagri Agroveterinária, onde caminhões carregam e descarregam insumos o tempo todo. Quase oito da noite, o último veículo carregado de adubo é despachado. E o estabelecimeno também fecha.
À esquerda do armazém, em um plano mais elevado do terreno, há um conjunto de 22 casas de alvenaria, 11 de cada lado da rua, todas servidas por luz elétrica. Antes da invasão, administradores e funcionários da fazenda ocupavam as casas. Agora, algumas são utilizadas como escritórios do assentamento; outras, habitadas por trabalhadores rurais. No início da pequena rua que cruza o conjunto foi instalado um telefone público, tipo orelhão. Morar aqui parece ser um privilégio. A ruazinha não é iluminada. Mesmo no escuro, algumas crianças andam de bicicleta ou se envolvem em brincadeiras. Apoiado na porta de casa, cuia de chimarrão na mão, José Ari Soares dos Santos, 46 anos, 6 filhos, observa o movimento.
- Aqui é bom, mas não vejo a hora de mudar para o meu lote. Eu gosto mesmo é de sítio - diz seo José, enquanto a mulher prepara o jantar no fogão a lenha. A sala é ocupada por uma TV a cores e alguns sacos de adubo. Como cortina, a bandeira do MST.
Lá fora, tudo se aquieta. As crianças foram dormir.
Quando o dia começa a clarear, já há movimento no portão do assentamento. Caminhões, carros, tratores, homens a cavalo. Depois começam a aparecer crianças em idade escolar. Esperam o ônibus que as levará a Rio Bonito do Iguaçu. As que moram perto da PR, como Sonia de Lima, 12 anos e Silonita de Brito e Silva, também 12 anos, têm mais facilidade para ir à escola na zona urbana.
Aproxima-se uma mulher aparentando preocupação e trazendo pelo braço um menino ruivo, cabisbaixo. Dona Maria dos Reis vai levar o filho ao posto médico em Rio Bonito.
- Ele tem um tumor aqui, acima da orelha. É a terceira vez que aparece.
A saúde. Este parece ser o maior problema no Ireno Alves. Não há um só médico para atender as quase 8 mil pessoas.
No lugar conhecido como Paraíso, onde se agrupam as 650 famílias que ainda aguardam lotes, os problemas são maiores. O acampamento é esparramado. A maior concentração de barracas é perto da sede (uma casa de madeira, pendurada no barranco), onde há comércio e até um ‘‘salão de cabelereiro’’. O barracão que serve de escola, construído pelos próprios sem-terra, e o campo de futebol completam o cenário.
Zilda Nunes de Mello, 24 anos, dois filhos, deixa o acampamento carregando pacotes e acompanhada por Elizangela, a filha mais velha.
- Meus pais moram aqui no Paraíso e quando venho aproveito para comprar umas coisas. Eu tenho um lote, mas fica muito longe daqui. Quando chove, não dá para vir.
Zilda queixa-se também que as dificuldades são grandes quando as crianças ficam doentes:
- Tem que levar no posto médico em Rio Bonito. Mas quem não tem condução que nem a gente, sofre mais.
Além de atendimento médico no assentamento, outras reivindicações que certamente seriam feitas por todas as mulheres, segundo Zilda, são creches e uma escola de segundo grau.
O projeto do assentamento prevê tudo isto. Em uma área já delimitada, num local conhecido como Vila Velha (ou Centrão, como foi rebatizado pelos trabalhadores rurais) o MST pretende construir uma vila rural. Há também planos de instalação de uma agroindústria, que seria administrada pela Coagri.
Se der tudo certo, o loirinho Jossiel terá um bom futuro em Rio Bonito. E certamente vai acabar sabendo que Ireno Alves dos Santos foi o principal líder dos sem-terra na ocupação da Fazenda Pinhal Ralo. Pouco depois, em dezembro de 1996, Ireno morreu em um acidente de carro.Milton DóriaEsperançaCrianças do acampamento no Paraíso, área que faz parte do Assentamento Ireno Alves dos SantosA pauta era ‘‘24 horas no maior agrupamento de sem-terra do País’’, mas o repórter encantou-se com as crianças do Assentamento Ireno Alves dos Santos, em Rio Bonito do Iguaçu e mudou tudo

mockup