Os meninos de Londrina
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 1997
Adriana De Cunto 
Londrina
Eu quero ganhar um urso bem grande.
- Quero ganhar uma Jog.
- Eu quero que a minha mãe pare de brigar com a minha irmã.
- Gostaria de melhorar na escola.
- Um videogame!
O presente desejado para o Dia das Crianças reflete o perfil dos menores de várias classes sociais de Londrina, da escola pública da periferia ao colégio particular do centro da Cidade. Só o garoto Edson Pereira de Oliveira, 11 anos, morador do jardim Olímpico - grande assentamento de sem-teto na zona oeste -, deixou de optar pelo tão sonhado presente para hoje. Minha mãe não tem dinheiro para comprar nada, conta o menino, que passa grande parte do dia pelas ruas do centro, cuidando de carros e motos. Mas se eu ganhasse qualquer coisa, para mim estava bom.
A mãe trabalha como empregada doméstica e o pai é caminhoneiro. Ele diz que está matriculado na 3ª série na Escola Municipal Eugênio Brugin, próxima ao jardim Olímpico, no período matutino. Mas na quinta-feira pela manhã faltou à aula para ficar brincando com outros garotos no parque infantil do Zerinho e também para cuidar de carros na avenida Rio de Janeiro. Hoje (quinta-feira) não deu para ir na escola não, admite, sem explicar a razão.
O dinheiro arrecadado pelas ruas é usado em benefício próprio. Eu compro coisas pra mim, comida, brinquedo. Edson vem para o centro de ônibus. Confessa que tem medo das pessoas estranhas que o abordam e garante: nunca cedeu à tentação dos outros garotos que oferecem cola de sapateiro ou drogas.
Apesar da falta de opção para presente, ele conta que o Dia das Crianças é um dia feliz. Eu sempre passo no Bosque brincando com os meus amigos.
O Dia das Crianças é também uma data importante para Irina Sophia dos Santos, 7 anos, que mora há menos de um mês no Lar Anália Franco (zona leste). É uma data que significa amor, paz, carinho, muita coisa boa, conta a menina, que se mudou para o Lar porque a mãe está desempregada e não tem condição financeira de criá-la. Agora, elas se encontram apenas no final de semana. Assim que ela estiver melhor de vida eu volto para a casa, diz, esperançosa. A mãe mora conjunto Maria Cecília (zona norte).
Irina sente saudades da comida da mãe e dos amigos que deixou no bairro. Gosto muito daqui, das tias, de todo mundo. Mas as outras crianças não gostam de mim. Ficam me chamando de novata, reclama. O melhor presente para a garota seria Deus aparecer na frente dela. Quanto ao futuro, ela tem muitos sonhos. Quero ser médica, bailarina e modelo. Também sonha em ser rica: Quero morar numa casa grande, ter três filhos e poder criar todos. Poder dar amor, escola, sentir saudades deles quando ficam longe.
Daiane Yugleboard Magalhães, 8 anos, mora com os pais e cinco irmãos no conjunto Ouro Branco (zona sul) e frequenta a creche do Lar Anália Franco pela manhã e à tarde. A mãe é diarista e o pai, pedreiro. Conta que gosta do Dia das Crianças porque, durante a semana, frequenta festas com doces e ganha presentes. Para melhorar sua vida, bastaria melhorar também o desempenho na escola. Um dia, quero ser bailarina e modelo. Vou ser rica e morar numa casa com elevador. Vou ter uma menina, porque as filhas ajudam mais as mães. Os moleques não ajudam nada. E vou dar tudo o que ela quiser.
Os presentes dos pais, avós e madrinha também são motivos de alegria para Wanessa Fedrigo Camargo, 11 anos, estudante do Colégio São Paulo, escola particular localizada no centro da Cidade. Tudo é bom no Dia das Crianças. A gente brinca, conversa, ganha presentes, conta. Este ano, ela pediu uma Jog, mas os pais recusaram dar o presente. Eles falaram que eu ainda não tenho idade para dirigir uma Jog.
Na vida de Wanessa, que mora no jardim Santa Mônica (zona norte), não há muita coisa para mudar. A menina, que pretende estudar Medicina, diz que gostaria de ser mais extrovertida e que a família adotasse um menor abandonado. Se todo mundo adotasse um menor de rua, as coisas melhorariam muito, acredita. A mãe é dona-de-casa e o pai, representante comercial.
Apesar de mais velha um ano, Luciana Flávia Vieira pediu um presente mais infantil: um urso bem grande, de 60 centímetros de altura, colorido e com umas balinhas desenhadas na barriga. Vou dar um nome a ele, mas antes preciso ver a carinha dele. A menina confessa que tem adoração por ursos de pelúcia porque eles são fofinhos. Juntou uma coleção de 28 modelos e todos têm nome. Comecei a colecionar há três meses, meus amigos sempre me dão de presente. Não gostaria de ganhar roupa íntima, e também não brinco mais de boneca; se eu ganhar, vai ficar só enfeitando o quarto, conta a garota. Ela faz a 6ª série no Colégio Vicente Rijo, uma das maiores escolas estaduais de Londrina, localizada na área central. Luciana Flávia é moradora do conjunto Antares (zona leste).
Gustavo Lima Bruno, 10 anos, já pediu e ganhou dos pais o presente do Dia das Crianças: um videogame. O menino mora no centro e tem um irmão. O pai é empresário e a mãe, assistente administrativa. Gustavo faz a 5ª série no Colégio São Paulo. Na opinião dele, a data de hoje é muito importante. Se não tiver Dia das Crianças, quando é que as pessoas vão lembrar da gente?.
Foi a festa promovida em comemoração do Dia das Crianças, no Hospital Evangélico, na última quinta-feira, que animou a permanência do garoto Alan Gustavo do Nascimento, 5 anos, na enfermaria infantil. Aí fica muito bom. Tem brinquedo e comida gostosa.
Por causa de um problema cardíaco chamado Miocardiopatia Hipertrófica Obstrutiva, que provoca um aumento no coração, o menino passou por uma cirúrgia cardíaca há cerca de 15 dias para implantação de um marca-passo. Na quinta-feira, ele aguardava mais alguns dias para outra operação, desta vez de substituição do aparelho. O marca-passo não está funcionando bem, explica a mãe, a dona-de-casa Maria Lúcia Nascimento, 34 anos.
A família é de Alvorada do Sul. A mãe acompanha o filho durante os dias de internação no HE. Do hospital, ele gosta de tudo - enfermeiros, médicos e das outras crianças -, exceto de tomar injeção. Ele chora tanto que o hospital quase vem abaixo quando a enfermeira aparece com a injeção, conta a Maria Lúcia. Além da companhia da mãe, Alan tem outros dois fiéis amigos: Eu não largo meus bonecos Mickey, que eu adoro.
Os anseios e o cotidiano das crianças londrinenses têm reflexos também no mundo dos adultos. O coordenador da Pastoral do Menor em Londrina, Claudionir Ceron, tem esperança de que um dia não exista mais a Pastoral. Se Deus quiser, vai chegar um dia que a sociedade será tão consciente quanto aos direitos da criança, que não vão mais precisar de nós. Para ele, a situação da criança carente brasileira mudaria radicalmente se fosse cumprido apenas o artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente. É dever da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar com absoluta prioridade a efetivação dos direitos referentes à vida, saúde, alimentação, educação, esporte ao lazer, a profissionalização, a cultura, a dignidade, ao respeito, a liberdade e a convivência familiar e comunitária, cita o coordenador.
Tem uma lei bonita, mas falta levá-la a sério, ressalta. Ele lembra que uma reivindicação da Pastoral do Menor é que a Prefeitura realize, de quatro em quatro anos, um censo para conferir quantas crianças estão fora da escola. Ele reconhece que as crianças da classe mais pobre são as mais desrespeitadas, mas comenta que existem problemas nas classes mais ricas, só que eles ficam acobertados.
A secretária de Ação Social, Marisa Goettel do Nascimento, lembra que o Programa Municipal de Atenção à Criança e ao Adolescente conta com seis projetos e atende cerca de 4 mil menores no município. Segundo Marisa, não é possível falar de assistência às crianças desassistidas, principalmente as que passam grande parte do dia nas ruas, sem mencionar os problemas familiares destes menores. O poder público, apesar das dificuldades está atento a esse problemas. Geralmente são casos de desemprego, desamor, alcoolismo, drogas.


