A advogada Ana Valéria Araújo, 35 anos, destaca-se pela atividade em defesa dos índios brasileiros. Ela chegou a bater boca com madeireiros invasores de terras indígenas, mas hoje adota estratégias mais eficientes para atingir seus objetivos. Consultora da Nações Unidas e da OEA em questões de direitos de povos nativos, ela ajudou a elaborar o novo Estatuto do Índio, aprovado pelo Congresso Nacional. No caminho de Ana, uma série de dramas: a onda de suicídios dos kaiowás, as invasões das terras dos xicrins (no Pará), a perseguição aos ianomâmis. Em todos os casos, a atuação de Ana Araújo - nos tribunais, nos gabinetes e em campo - foi decisiva para evitar tragédias maiores.


VIANA
HERDEIRO DE CHICO MENDES
O governador do Acre, Jorge Viana (PT), 40 anos, é considerado o herdeiro intelectual de Chico Mendes. Engenheiro florestal, Viana trabalhou por vários anos com o líder seringueiro, morto em 1988. Hoje, tenta realizar o principal objetivo de Chico Mendes - atingir o desenvolvimento sustentável da Floresta Amazônica. Eleito em primeiro turno no ano passado, ele já teve uma experiência na administração pública: foi prefeito de Rio Branco entre 1993 e 1996, saindo da gestão com a popularidade acima de 90%. Na oposição ao presidente Fernando Henrique Cardoso, Viana agora tem o desafio de governar um Estado praticamente falido, com o caixa vazio e muitos problemas sociais. Entre eles, os conflitos sangrentos entre fazendeiros, seringueiros, trabalhadores rurais e ambientalistas. Neste guerra, morreu Chico Mendes. No mesmo campo de batalha, chamado Acre, Jorge Viana pretende erguer um novo modelo de ecologia e progresso. Conseguirá?


BAGGIO
COMPUTADORES NAS FAVELAS

Rodrigo Baggio, 29 anos, programa computadores para uma função social: tirar muita gente das malhas do narcotráfico. Ele é o coordenador do Comitê para Democratização (CDI), que oferece cursos de informática para moradores de 47 favelas no Rio. Pela tela dos computadores, os jovens pobres aprendem um ofício e ganham uma nova alternativa de renda. Até agora, Baggio apresentou o mundo da informática a 10 mil alunos, muitos deles já com passagem pelo tráfico de drogas nos morros cariocas. Agora, a missão de Baggio ganhou considerável impulso: a megaempresa de informática Microsoft doou US$ 1 milhão ao CDI. Em breve, o‘‘programador social’’ quer levar 3 milhões de computadores a comunidades carentes do Brasil.


GAROTINHO
A ESQUERDA DIFERENTE
Quem é Anthony William Matheus de Oliveira? É o ex-comentarista de futebol a quem sempre diziam: ‘‘Fala, Garotinho’’. O apelido pegou. O atual governador do Rio também é ex-outras coisas. Ex-comunista, por exemplo. Ateu, foi até 1994, quando virou presbiteriano, após desastre de carro. Prefeito de Campos na década de 90, tornou-se administrador de grande popularidade. Agora, quer promover mudanças na esquerda brasileira, com a qual se identifica. Aos 39 anos, ele continua usando elementos do populismo, no qual representa uma espécie de ‘‘nova geração’’. Apoiado na eleição pelo ex-governador Leonel Brizola, vive com ele uma relação ambígua, em que não faltam troca de farpas. Além de construir escolas e postos de saúde, Garotinho tem o desafio de mudar o terrível quadro da segurança pública no Rio. Em lance original, tenta fazer que os líderes de gangues troquem armas por computadores e bolsas de estudo. E está de olho no panorama da sucessão presidencial. Será que esse garoto vai longe? - já perguntava o locutor de futebol.


ANDRADE
PARCERIAS ECOLÓGICAS
O ex-explorador Marcelo Carvalho de Andrade, 40 anos, criou a Fundação Pró-Natura, grupo que faz convênios com grandes empresas internacionais para preservação da natureza. Com parcerias que vão da Coca-Cola à Peugeot, Marcelo Andrade estimula o plantio de milhões de árvores na Amazônia e no Pantanal, combate as queimadas e ajuda a economizar recursos naturais. Andrade abandonou a profissão de médico e as atividades de alpinista em busca de uma fórmula para conciliar progresso e equilíbrio ambiental no planeta. O próximo objetivo é criar um fundo internacional para a biodiversidade.


GILMAR
NA VANGUARDA DOS SEM-TERRA
O Movimento dos Sem-Terra (MST) é alvo de polêmica por onde passa. Diante dele, fazendeiros invocam o direito à propriedade. Juristas contestam a existência legal do movimento. Políticos apontam provocações e denunciam delitos. O paranaense Gilmar Mauro, um dos líderes do MST, está do outro lado da cerca. Teve origens no campo, viu um telefone pela primeira vez aos 18 anos idade, cresceu numa sem energia elétrica ou água encanada - mas se preocupa muito com a formação intelectual. Coordenando ocupações de terra, o líder sem-terra enfatiza o aspecto alarmante do problema fundiário brasileiro: a concentração de terras nas mãos de uma minoria. Gilmar Mauro compra qualquer briga quando o assunto é desigualdade social. Com ele, estão pelo menos 500 mil sem-terra. O MST, amálgama de discórdia e tensão social, se impõe como força política no cenário brasileiro e consegue espaços na mídia do Primeiro Mundo. Ele personifica a atitude de um movimento que provoca todas as reações possíveis, exceto a indiferença.


PERES
DOUTOR EM AMAZÔNIA
O biólogo paraense Carlos Peres é uma ativista em defesa das reservas naturais amazônicas. Estudando a colheita de castanha-do-Pará, fonte de sobrevivência para milhares de habitantes da região, Peres encontrou soluções viáveis para diminuir impacto ecológico da atividade. Doutor em ecologia, ele divide o tempo entre pesquisas de campo no Pará e aulas na Universidade de East Anglia (Inglaterra). Peres sabe que, em ecologia, tempo é um fator fundamental. Enquanto a devastação avança, o biólogo corre contra o relógio para elaborar planos racionais de desenvolvimento sustentável dentro do panorama ambiental brasileiro. Seu trabalho de proteção às espécies animais e vegetais da floresta tropical é considerado revolucionário e eficiente mesmo pelos adversários políticos. Ele luta por uma Amazônia viva no ano 2050.


PATRÍCIA
NARRADORA DA VIOLÊNCIA
Unir palavra e imagem é o desafio maior da escritora Patrícia Melo. Nascida em Assis (SP) há 36 anos, ela não descreve a experiência da vida interiorana. Seus romances e roteiros, com temas policiais, mostram a irrealidade e o pesadelo dos grandes centros urbanos. Sempre usando a primeira pessoa nos livros, Patrícia Melo garante que seus temas são o oposto da infância na pacata Assis. Já o estilo, que mistura ritmo de novela de detetives e recursos cinematográficos, remonta a essa época, quando Patrícia adorava assistir a filmes na grande tela. Destaque em grandes feiras européias de livros, Patrícia é - ao lado de ‘‘mago’’ Paulo Coelho - um símbolo do ressurgimento da literatura brasileira no plano internacional. Com obras traduzidas para oito idiomas, a escritora usa o tema universal da violência para exprimir, em cenas rápidas e chocantes, os dilemas do homem contemporâneo, acossado pelo crime. Entre seus livros, o mais famoso é ‘‘O Matador’’, ambientado na periferia de São Paulo.


OLIVA
CRISTAIS DA SAÚDE
O físico Glaucius Oliva é PhD em cristalografia, uma ciência que estuda a função das proteínas pela sua cristalização. Com as pesquisas que desenvolve na Universidade de São Carlos, Oliva contribui para controle de pragas na agricultura e doenças endêmicas. Vencedor de prêmios internacionais, ele hoje estuda formas de atacar a malária, o mal de Chagas e a esquistossomose, doenças tropicais que atingem milhões de brasileiros todos os anos. Seus experimentos já entraram em órbita: foram usados em naves espaciais da Nasa. Com gravidade zero, é mais fácil cristalizar proteínas e obter as respostas que Oliva procura para a saúde do Terceiro Mundo.


MARCELO
A MÍDIA NO ALTAR
‘‘Erguei as mãos!’’ A frase imperativa é refrão de música, está nas paradas de sucesso, ajuda a vender discos como água e promove curiosa mistura entre religiosidade e ginástica aeróbica. O responsável pela fórmula bem-sucedida de catolicismo mercadológico é o padre Marcelo Rossi. Criticado por setores da própria Igreja Católica, que o acusam de deturpar o conteúdo da fé em nome do sucesso a qualquer preço, ele tem levado multidões a suas missas-espetáculo. Fiéis que faziam discretas consultas ao relógio antes da frase ‘‘Vão em paz e que o Senhor vos acompanhe’’ (ou eram católicos-não praticantes) hoje acompanham atentos e animados as celebrações do padre - que estão longe de ser monótonas. Ex-professor de educação física, ele tenta levar alegria e descontração para o território sagrado da missa. Navegador da Internet e adaptado à globalização, Marcelo Rossi quer usar a comunicação de massa para despertar o imenso rebanho católico do Brasil. Seu carisma vem em technicolor; sua oração é multimídia. Sua missa é também música, dança e... malhação.


MARINHO
SINDICALISTA DA NOVA GERAÇÃO
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, 39 anos, é o líder da categoria historicamente mais organizada e politizada do País. Com greves, piquetes e prisões na biografia, Marinho está às voltas com um inimigo nº 1: o desemprego. Recentemente, o Sindicato do ABC inovou ao fazer greve pela manutenção de postos de trabalho nas grandes montadoras do ABC. Após muita negociação - a especialidade de Marinho - o governo federal baixou impostos, as fábricas reduziram preços e os postos de trabalho foram mantidos. Marinho representa uma nova geração do sindicalismo brasileiro. Formado nas greves de 79 e 80 - que revelaram Lula -, o dirigente sindical comanda uma luta em que não faltam ousadia e criatividade. Nos bottoms da campanha por empregos, em lugar da marca ‘‘Ford’’ lia-se a expressão ‘‘Fome’’. Esta, a maior ameaça ao trabalhador brasileiro em tempos de recessão.


SALLES
BANQUEIRO DOS NOVOS TEMPOS

Pedro Moreira Salles, 39 anos, é o banqueiro que deu a volta por cima. Após a queda da inflação, o sistema bancário do País entrou em crise. Salles, jovem herdeiro do Unibanco, não só escapou da turbulência como aproveitou a oportunidade para realizar fusão com o banco Nacional, por US$ 1 bilhão, em novembro de 1995. A partir dessa operação, de extrema ousadia, o Unibanco pulou de quinto para terceiro lugar entre as instituições financeiras privadas do Brasil. Salles tem idéias conservadoras em economia, mas defende a inovação radical nos sistemas de atendimento e organização do sistema bancário. Ele fala com empolgação do legado do pai, Walter Moreira Salles, e tem certeza de que o banco está mais forte que nunca. Pedro Salles reserva o mesmo otimismo quando lhe perguntam sobre o futuro do País. Na opinião do banqueiro, o Brasil é mais forte do que pensa e tem excelentes chances de virar um país melhor.


BROWN
SOM CONTRA A MISÉRIA
Sucesso é pouco para ele. Carlinhos Brown, 36 anos, pretende mudar a realidade dos meninos pobres de Salvador com o poder da música. Criando fusões de ritmos e estilos, o mago do rayban e do batuque foi uma das sensações da MPB na década de 90. O cantor, compositor e percussionista nasceu em família humilde, na favela de Candeal Pequeno. Nos anos 90, entre a comunidade pobre da Bahia, organizou o grupo Timbalada, com 110 componentes. Na escola Pracatum, que está sendo inaugurada por ele, meninos carentes terão educação musical gratuita. A meta de Brown é transformar arte em instrumento social e melhorar a vida na terra em que nasceu. Ele quer um século XXI com muito batuque e nenhuma tristeza.


VIVIANE
EM MEMÓRIA DE AYRTON
A vida da psicóloga Viviane Senna mudou junto com o Brasil no dia 1º de maio de 1994. A partir da morte de seu irmão, Ayrton Senna, ela transformou o nome e a memória do grande piloto de Fórmula 1 em trabalho social. Através do Instituto Ayrton Senna, Viviane desenvolve programas voltados para ajudar crianças brasileiras expostas à miséria, às doenças, à desinformação e à violência. Em 1998, a fundação movimentou US$ 9 milhões, com a ajuda de grandes grupos internacionais e o prestígio do nome Ayrton Senna. Ela não gosta de usar a palavra ‘‘morte’’ quando fala do piloto. Conforme um dia quis o irmão, as atividades coordenadas por Viviane beneficiam hospitais, escolas, creches e outras instituições. Essa é, agora, a principal corrida da família Senna.REVISTA DOS EUA SURPREENDE COM LISTA DE DESTAQUES BRASILEIROS PARA SÉCULO XXI
Nas últimas décadas, os brasilianistas tiveram papel importante na análise da história do País. De uma perspectiva segura e imunes a influências várias, puderam mostrar a realidade do Brasil ao mundo e, mais importante, aos próprios brasileiros. Em maio, a revista ‘‘Time’’ publicou, com a colaboração da rede de TV CNN, uma edição especial com as principais lideranças latino-americanas para o próximo milênio. São 50 nomes escolhidos nas áreas de política, negócios, desenvolvimento, arte e inovação. Do Brasil são listados 14 nomes, muitos deles ignorados pela mídia nacional.
A América Latina, diz a revista, vive mudanças profundas, e a nova geração de líderes da região vai enfrentar muitos desafios em diferentes campos. Os 50 personagens selecionados deverão deverão estar na linha de frente nas transformações do futuro do continente neste início de milênio, segundo prevê a ‘‘Time’’.
Entre os brasileiros, os nomes surpreendem. Na política, por exemplo, aparecem os nomes do governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), considerado o ‘‘sucessor natural’’ do presidente Fernando Henrique Cardoso. Outro nome é o do paranaense Gilmar Mauro, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). O governador do Acre, Jorge Viana (PT), também aparece, mas no campo do desenvolvimento sustentado da Amazônia. Viana segue a trilha de seu mentor: Chico Mendes, o carismático líder dos povos da floresta, assassinado em 1988.
O estabilishment conservador deve ter torcido o nariz para a reportagem. As figurinhas carimbadas das últimas décadas parecem estar, pelo menos na ótica da ‘‘Time’’, no ocaso. A previsão da revista norte-americana, se confirmada, vai oxigenar e muito a atmosfera brasileira.
Confira, nesta página, perfis dos líderes brasileiros com base em informações da revista ‘‘Time’’.


ANA ARAÚJO

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