Os índios e a faixa misteriosa do IR
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de dezembro de 1996
Apolo Theodoro 
Calma, cara-pálida, você não está tendo visões e nem é uma ilusão de ótica. É isso mesmo que você está lendo na faixa: Faça aqui seu imposto de renda; E é isso mesmo que você está vendo na foto: o acampamento indígena localizado às margens da Via Expressa, logo adiante do 4º Distrito Policial de Londrina. Ah, o que está intrigando é a faixa estar colocada ali? Cara-pálida esperto...
Mais um pouquinho e já pode ser jornalista, aquele tipo que especula e que se mete onde não é chamado; que fica procurando chifre de boi na cabeça de cavalo e não pode ver nada de diferente na frente dos olhos que já fica de orelha em pé.
Essa faixa, por exemplo, foi um jornalista enxerido que a viu e já ficou todo assanhadinho pra saber qual o mistério que se esconde por trás dela. E, para descobrir tal enigma, o jeito foi dar uma chegada até o acampamento pra saber quem é esse índio letrado que está oferecendo serviço tão especializado à comunidade branca ou, se não for isso, pelo menos tentar desvendar o segredo da faixa.
À beira da Via-Expressa, o índio Aristides Deolindo prepara o bambu para fazer balaio. Embora com a cara desconfiada - que é a única cara que os índios têm quando conversam com brancos - ele não enjeita conversa:
Folha - Queria falar com o índio que faz imposto de renda.
Aristides - Imposto de renda? O que é isso?
Folha - Imposto de renda é um dinheiro que a gente tem que pagar pro governo...
Aristides - Como é que índio vai pagar imposto de renda se não tem renda? O governo tem é que ajudar o índio que é o brasileiro legítimo.
Folha - Mas e aquela faixa lá pendurada?
Aristides - Ah, ah, ah, ah... A gente nem sabe o que está escrito nela. Foi a molecada que achou na rua e colocou ali. Criança já viu, né... Ah, ah, ah, ah...
Com o índio Aristides Deolindo ainda dando risada, a reportagem da Folha entra acampamento adentro. Os adultos, alguns fingem não ouvir as perguntas e ignoram a presença do visitante; outros, matando o ranguinho da hora do almoço, respondem com má vontade e é difícil arrancar algo mais que um sim ou um não.
Entre a molecada e os jovens, o mesmo mutismo. Só balançavam a cabeça para dizer que não sabiam quem fora o autor da façanha. Dava a impressão até de que temiam alguma represália.
Após muito esforço, apenas um, ainda assim meio ressabiado, abriu a boca para responder que sabia ler. Leu o que estava escrito na faixa, mas ficou todo envergonhado porque não tinha a menor idéia do significado.
Mais do que tudo, porém, o importante é que o mistério da faixa foi desvendado. E, se tudo não passou de brincadeira de criança, o que se vê de miséria dentro das barracas do acampamento é coisa muito séria. Por isso, se não serviu pra nada, a faixa enganosa teve pelo menos este mérito: despertar a atenção para esse povo que não paga imposto, mas paga com a própria pele o direito de existir na terra em que chegaram primeiro que todo mundo, e na qual são tratados como se não pertencessem ao gênero humano.


