Seis cachorros, uma casinha de madeira de apenas três cômodos construída há mais de 50 anos. O luxo é o pequeno painel, fornecido pelo governo federal, que transforma a luz do sol em energia elétrica; mas a energia é insuficiente para fazer funcionar geladeira, televisão ou chuveiro, só dá conta do radinho e das lâmpadas. Estamos na morada de Maria da Conceição Pires, 96 anos, e Turíbio Raimundo Pires, 61, mãe e filho. Eles são, sem exagero, os moradores de um pedaço de paraíso: estão na ponta mais ao leste do Paraná.
Para chegar até Maria e Turíbio é preciso embarcar em Paranaguá com destino à Ilha do Superagui, intitulada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Sítio do Patrimônio Natural da Humanidade e considerada Parque Nacional de Proteção Ambiental.
A viagem pode demorar de 40 minutos a duas horas, depende da potência do barco. O desembarque acontece na Barra do Superagui, a colônia de pescadores mais habitada de toda a ilha, na porção sul, do lado oposto de onde estão os nossos personagens. Ocorre que esse pedaço de litoral do Paraná vai embicando para o lado de São Paulo, cada vez mais a nordeste. Trata-se de um lugar cheio de curiosidades e de história.
Para concluir a viagem, barco novamente. Há duas vias: pelos canais de água doce misturada com salgada ou por mar aberto. Quem conhece a região indica os canais, de águas mansas. É por eles que vamos, guiados por Herondino de Ramos, 66, nascido e criado por ali. São 48 km, devidamente medidos pelo GPS do repórter fotográfico Diego Singh, vencidos em quase três horas.
Para chegar ao extremo leste do Paraná é preciso passar por uma artimanha humana: o Canal do Varadouro. Com seis quilômetros de extensão, esse canal foi inaugurado em 1952 para permitir aos paulistas que desciam pelo canal da Cananéia um acesso ao porto paranaense. Desde então, Superagui passou a ser, de forma artificial, uma ilha. O Varadouro é como se fosse um finíssimo vaso sanguíneo que liga duas grandes artérias, uma do lado paranaense, outra do lado paulista.
Um pouco mais para frente, já quase chegando ao extremo leste do Paraná, uma parada obrigatória: a Vila de São José de Ararapira, lugarejo fundado em 1776 pela coroa portuguesa e que já não tem mais habitantes. O povo foi embora atraído por melhores condições de vida da cidade de Ariri - do outro lado do canal, no Estado de São Paulo - ou amedrontado pela erosão do barranco, que começou a engolir casas depois que a construção do Varadouro afetou o regime das marés. ''Aqui tinha de tudo, de cartório a padaria. Mas ainda hoje os antigos moradores usam o cemitério e a igreja'', ressalta Herondino, o nosso guia.
Dali a alguns metros está o ponto extremo leste do Paraná, uma área de mangue no encontro do rio Superagui com o canal da Cananéia. Do lado paulista está uma ponta estreita da Ilha do Cardoso, que avança como se fosse entrar no Paraná. Do outro lado dessa ilha, mar aberto. Um pouquinho mais de navegação e avistamos a casa que procurávamos.
Maria e Turíbio, que só comem carne de sol por falta de geladeira e só tomam banho gelado por falta de chuveiro elétrico não se consideram pobres. Estão satisfeitos com o dinheiro que recebem como aposentados. Não sabiam desta história de serem os últimos moradores, mas ficaram ''muito honrados'', nas palavras de Turíbio, que era pescador antes de se aposentar e passar a se dedicar apenas a cuidar da mãe, que a vida toda morou nas bandas do Superagui. Ele, ao contrário, andou por aí, passou por cidades grandes, mas não acostumou.
Dona Maria, muito lúcida, anda pensando em ceder aos apelos da filha que mora em Ariri. Sabe que está chegando aos 100 anos de idade e a saúde já não anda grande coisa. Ficar isolada não é bom negócio, porém Turíbio não quer deixar a casinha beira-rio. Ela, pelo jeito, também não. Quando o repórter pergunta o motivo, o filho apenas aponta para o Rio Superagui e explica: ''É por isso que não dá vontade de sair daqui''.
Tal qual não bastassem tantas curiosidades desse extremo paranaense, o professor Adilar Cigolini nos presenteia com mais uma. ''Entre a Ilha do Cardoso e a Ilha do Superagui há um processo geomorfológico interessante, onde a ação do mar tem retirado solo da Ilha do Superagui e depositado do outro lado, na ponta Sul da Ilha do Cardoso. Com isso, diminui, de forma menos intensa, a Ilha do Superagui na sua porção norte e aumenta, de forma mais intensa, a Ilha do Cardoso na sua porção sul. Desde a definição do limite naquela área, em 1921, a mudança nas feições do lugar são bastante expressivas.''

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