Paulo Wolfgang40 anos de profissãoO caminhoneiro Antônio de Oliveira Morais: soneca fora de hora gerou acidente. Hoje ele é mais prudente O homem que carregou nos ombros todos os pecados do mundo. Assim pode ser resumida a história de São Cristóvão, patrono dos motoristas e viajantes e que teve seu dia comemorado na última sexta-feira, dia 25 de julho, com as tradicionais missa e benção das chaves na Catedral de Londrina. Mais do que a ‘‘solução’’ conhecida como água benta (água benzida), os motoristas procuravam no dia pedir paz e proteção para um trânsito cada vez mais caótico na Cidade; e paz também para a violência das estradas, que mata no País mais do que qualquer outro indicador das estatísticas.
Histórias trágicas, no entanto, poderiam ser lembradas em cada esquina ou curva de estrada brasileira, como um painel triste da realidade de quem depende do volante para sobreviver. Mas em um dia especial - como o Dia dos Motoristas - vale mais o alerta e, acima de tudo, valem mais as alegrias de quem não consegue passar um dia sequer longe do brinquedo favorito. Seja ele um carro de passeio, ônibus ou caminhão.
Uma soneca fora de hora, por exemplo, poderia mesmo ter transformado em tragédia a vida do caminhoneiro Antônio de Oliveira Morais, 61 anos de idade e 40 de profissão. Ele acabou batendo o caminhão que dirigia, no meio da estrada, mas a dança das probabilidades jogou a favor do motorista: ninguém saiu ferido. ‘‘Hoje não arrisco mais. Quando era mais novo sim, mas agora a gente já fez o que tinha que fazer e tem mais responsabilidade, não dá para brincar’’, declarou na última quarta-feira, pouco antes de seguir viagem para Goiás com o caminhão Mercedes Benz carregado de defensivos agrícolas.
Com a experiência acumulada em quatro décadas, Morais acredita que é um privilegiado. Durante todo esse tempo, cruzando os quatro cantos do País, nunca se envolveu em acidente grave, nem foi assaltado ou sofreu perseguição. Gosta do que faz, mas acha que a profissão não é suficientemente valorizada. ‘‘O frete é muito barato, a manutenção cara e o que sobra é muito pouco. Sem contar o perigo das estradas. Mas ainda assim deu para estudar os quatro filhos’’, conforta-se, lembrando que chegou a ficar 40 dias longe de casa viajando.
Para João Neves da Silva Filho, 48 anos de idade e 25 como motorista profissional, a paixão por caminhões começou ainda no final da década de 50,
na empresa em que o pai trabalhava em Cafelândia, interior de São Paulo. Lá, ele lembra, aprendeu a dirigir um
Milton DóriaPerigos do ofícioO ex-sargento da PM José Lopes trocou a farda pelo táxi e gosta do que faz, apesar da insegurança‘‘Fordeco’’ e pouco tempo depois já estava decidido pela profissão. ‘‘Eu comecei a estudar, fui professor, trabalhei com contabilidade. Mas parece que tem alguma coisa no sangue que pede estrada.’’
Ao invés de transportar carga de um lado para outro, João Neves passou a levar gente. Ele começou na profissão como motorista de ônibus da Viação Garcia, onde permaneceu por 16 anos. De Londrina, cobria as diversas linhas que a empresa ofertava na época aos clientes: Curitiba, Foz do Iguaçu, São Paulo, Rio de Janeiro, etc. ‘‘A gente ficava mais fora do que dentro de casa. Tem filhas que eu quase não vi crescer’’, lamenta. Ele também se considera uma pessoa de sorte: nunca se envolveu em acidente grave durante os anos que passou na estrada.
Em 1988, pensando em ficar mais perto da família, João Neves venceu um injustificado preconceito e passou a dirigir em linhas do transporte coletivo urbano, empregado pela Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL). Ele explica: ‘‘Pelo fato de a gente ter um contato direto com as pessoas, ao contrário do transporte rodoviário, sempre existiu aquela cisma. Isso é comum entre motoristas. Eles acham que as conversas dos passageiros, que estão muito próximos, a companhia, tudo isso pode acabar atrapalhando. Mas é uma questão de adaptação. Hoje eu posso dizer que o ônibus urbano é muito melhor para trabalhar do que o rodoviário.’’
Para o motorista, é possível por meio da atual profissão ‘‘ver a vida passar perto de voc꒒ e com isso crescer e melhorar a própria vida. ‘‘No caso do ônibus rodoviário, você fecha a cabine e passa seis, sete horas no isolamento. Agora não, a gente se sente mais útil’’, acredita. Além das conhecidas broncas de passageiros insatisfeitos com o serviço, João Neves aponta uma característica pouco conhecida dos motoristas da Cidade: a de psicólogo da vida urbana. Segundo ele, não é raro que as pessoas fiquem amigas dos motoristas e troquem problemas da família ou do casamento por conselhos. ‘‘Às vezes a gente ajuda bastante, dá uma mensagem positiva, sempre olhando o lado bom das coisas.’’
Hoje, o que mais chama a atenção de Neves é o problema da criança de rua, que entra no coletivo sem destino e sem um trocado no bolso para pagar a passagem. Certa vez, ele conta, um garoto tentou assaltá-lo na rua; no outro dia, o mesmo garoto entrou pela porta do ônibus. ‘‘Fechei a porta e pensei em dar um susto naquele menino. Aí olhei bem para ele, vi o jeito dele e fiquei com dó. É difícil entender como um pai pode deixar o filho viver daquele jeito’’, lamenta. A partir dessa experiência, o motorista chegou a escrever um livreto, chamado ‘‘Os Filhos da Rua’’. ‘‘No livro, a gente se coloca no lugar do pai e tenta explicar por que é que meu filho está na rua.’’
Com apenas 22 anos, Marlene Barros Pereira não se intimidou em entrar, no ano passado, em uma profissão praticamente dominada por homens. Motorista de táxi em Londrina, às vezes ela chega a rodar 15 horas por dia, de norte a sul, leste a oeste, de segunda a segunda. E garante: ‘‘Adoro dirigir, é uma profissão que está no sangue. Não aguentaria levar uma vida de dona-de-casa.’’
Marlene vê com naturalidade o fato de começar a trabalhar como motorista de táxi. Pudera: o pai, o marido e o sogro também seguem a mesma profissão. E ela mesmo começou a dirigir muito cedo, desde os 15 anos de idade. ‘‘Para falar a verdade nunca tive nenhum tipo de problema. Inclusive tenho muitos clientes e ganho mais até do que meu pai ou meu marido’’, revela, sem nenhum constrangimento.

Senhora do taxímetroMarlene Pereira, esposa, filha e nora de taxistas: ‘Não aguentaria levar uma vida de dona-de-casa’A única coisa que às vezes chateia Marlene são comentários maliciosos de pessoas - normalmente homens - que a vêem no carro e falam coisas do tipo ‘‘ainda vou andar nesse táxi’’. Certa vez, ela lembra, um rapaz fez uma gracinha e, em seguida, um gesto obsceno, causando indignação na passageira que estava no carro. ‘‘A cliente dizia: ‘fala alguma coisa, fala alguma coisa!’ e, por isso, acabei fazendo um comentário, respondendo à provocação. Depois a gente deu muita risada juntas’’, recorda.
Afora isso, Marlene não acredita que exista um preconceito maior contra mulheres que trabalham na profissão. Mas admite: quase todo mundo fica assustado quando entra no carro e a vê uma mulher no volante. ‘‘Outro dia fiquei com o carro parado esperando uma senhora mais de 15 minutos. Até chamei a central, dizendo que não tinha ninguém no local indicado’’, comenta. O final da história foi inusitado: a mulher estava perto do carro, também esperando o carro, e não percebeu que o veículo parado ao lado era um táxi, simplesmente porque tinha visto antes uma mulher no volante.
Sargento da reserva da Polícia Militar em Londrina, José Lopes Júnior, 54 anos, também não se apertou quando encostou a farda, há sete anos: ele assumiu definitivamente o volante de um automóvel e virou taxista. Entretanto, a mudança não foi traumática e muito menos uma novidade. Havia quase 15 anos que ele mantinha carro na praça, com funcionário, e também conduzido por ele mesmo, nos horários de folga. ‘‘Hoje a PM do Paraná até que está com um vencimento razoável, coisa que no passado foi o inverso. Esse foi o motivo pelo qual comprei um táxi’’, explica.
Mesmo passado tanto tempo na polícia, José Lopes também considera muito perigosa a profissão de taxista e acha que hoje em dia todo cuidado é pouco. ‘‘Um fato negativo para nós, por exemplo, é o grande índice de drogados que utilizam o serviço. Eles procuram de todas as maneiras passar a gente para trás, querendo pegar troco com cheque furtado para comprar drogas. Querem até que a gente vá até os pontos de venda e aguarde o retorno. Mas tem que se evitar tudo isso.’’
Para o taxista - tirando os contratempos -, a profissão é muito boa e oferece até alguns fatos inusitados. Por exemplo: o cliente que liga para a central exigindo determinado tipo de carro e até com cor específica. ‘‘Às vezes a pessoa pede um carro mais novo, de uma marca específica. A mulher, inclusive, que é mais dada a esse tipo de coisa’’, observa. Ponto para ele, que tem um automóvel Santana, quase novo, com quatro portas.
Outra curiosidade que José Lopes tirou do ‘‘baú’’: foi no final da década de 70, quando de folga da PM ele assumiu o táxi e foi buscar um casal aparentando idade avançada. Na época, ele tinha um Corcel, também com quatro portas, e estranhou quando viu a mulher tentando se acomodar no painel localizado sobre o banco traseiro, onde normamente são colocados os alto-falantes do som. ‘‘Falei que se sentasse no banco e ela explicou, sem jeito, a confusão: nunca tinha andado de carro na vida. Isso já quase na década de 80!’’
Mas quem foi, afinal, São Cristóvão? A história deste que é um dos santos mais populares da igreja católica data do ano 250 e está cercada de mitos e realidades. Consta que ele era filho do rei de Canaã - Palestina -, recebendo quando nasceu o nome de Ofero. À medida que crescia, Ofero desenvolveu uma força incrível, aproveitando-se dela para caminhar e conhecer diversas partes do mundo.
Nessas andanças, quando estava na Lícia, ouviu a história de Jesus Cristo e ficou encantado. Pouco tempo depois, foi batizado e virou um cristão devoto. A partir daí, como forma de servir a Cristo, Ofero passou ter um trabalho bastante especial: transportar gratuitamente nos ombros viajantes que precisassem atravessar um rio profundo e de fortes corredeiras.
Certo dia, um garoto pediu que o levasse de uma margem para outra do rio. A cada passo que dava, Ofero percebeu que o peso aumentava cada vez mais, fazendo-o curvar todo o corpo. ‘‘Não te surpreendes com o que aconteceu, pois comigo carregaste todos os pecados do mundo’’, avisou o garoto, revelando ser o próprio Jesus Cristo.
Surpreendido pela revelação, Ofero resolveu pregar o Evangelho e trocou de nome, passando a se chamar Christopheres ou Cristoballos - que em grego significa ‘‘aquele que carrega Cristo’’. Morreu decaptado, vítima da perseguição que Décio promoveu contra os cristãos.
Traçando um paralelo com a realidade atual, não é difícil concluir que os motoristas de hoje também carregam nos ombros diversos pecados e responsabilidades, ilusões e realidades. Um exemplo comum: a responsabilidade de parar o veículo em um sinal vermelho; o pecado de ‘‘furar’’ o mesmo sinal; a ilusão de que nunca vai acontecer nada; a realidade - às vezes muito cruel - de um acidente. A equação é simples, o resultado pode ser trágico.

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