Mário CésarOS ETERNOS FATOS MIÚDOS
Aí está uma daquelas pequenas coisas que acontecem a todos, do bóia-fria ao megaempresário, do camelô ao físico nuclear, do mecânico ao padre, da dona-de-casa ao mergulhador, do beque central ao repentista. Então, por que não acontecer ao prefeito de Londrina? O sapato direito de Antonio Belinati, num dia desses, resolveu engolir a meia, enquanto ele discutia assuntos certamente mais importantes na Prefeitura. É situação chata - mas quem não a conhece? Ter a meia engolida pelo calçado prova o poderoso igualitarismo dos fatos miúdos. Todos os homens são iguais perante a meia engolida. No mesmo nível estão a camisa abotoada incorretamente, o espirro que não sai, o bocejo durante o discurso, a vontade de dar risada em situações sérias, o estômago que ronca escandalosamante, a incômoda viagem de dois desconhecidos no elevador, a gotinha na torneira que não deixa ninguém dormir direito, a mosca invisível no escritório, o pedaço de fígado servido na casa dos outros, a música do Wando que não sai da cabeça, o nome que está na ponta da língua mas é impossível lembrar. A lista desses fatos menores, que impõem sua força ditatorial à rotina, é muito grande, e pode ser ampliada a cargo da imaginação do leitor. Acontece, prefeito.
(Paulo Briguet)

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