Um negócio com diversas vertentes e vários tipos de trabalhadores. Os ''cuidadores de carro'', como os flanelinhas preferem ser chamados atualmente, estão em todos os locais da cidade onde exista algum movimento de automóveis. Alguns têm ponto fixo, trechos de espaço público que valem ''uma grana'', vendidos e revendidos a dinheiro vivo. Outros trabalham apenas em eventos, onde literalmente correm atrás de cada cliente. Quem ''pegar'' o motorista primeiro têm direito ao dinheiro, adiantado, que sai do bolso do dono do carro, o mesmo que paga pedágio, IPVA e uma série de outros impostos embutidos no valor dos combustíveis. Vale dizer que entre os ''cuidadores'' também há gente honesta, que leva o trabalho a sério e não obriga ninguém a pagar pelo serviço.
Nas ruas de Londrina a FOLHA encontrou histórias ''cabeludas'', como a do ponto que pertence a um traficante. Cenas de coação, como a dos ''cuidadores'' que induziram os motoristas a estacionar em um lugar proibido durante um evento, e de profissionalismo, como a de Sebatião Xavier (veja box nesta página).
Paulo (nome fictício), 20 anos, rapaz franzino, de fala acelerada, mora na rua. Não tem família. Diz sonhar com uma vida melhor e jura que não usa drogas. Seu ponto é um dos mais nobres da região Central. O movimento de carros é intenso depois das 18h, quando encerra o expediente da Zona Azul. O lucro é de aproximadamente R$ 10 por dia. Valor que garante almoço e janta.
Porém, os rendimentos de Paulo poderiam ser bem maiores se não fosse a taxa que ele é obrigado a pagar ao ''dono'' da rua na qual trabalha. Trata-se de um aluguel: R$ 50 por dia. ''Quando tem evento por perto o valor sobe para R$ 60'', conta o guardador, que paga a taxa, juntamente com um outro rapaz que trabalha na rua ao lado, a um traficante que está preso. O cuidador de carros relata que antes do traficante ir preso, ele recebia o dinheiro pessoalmente. Agora, o dinheiro é enviado para dentro da cadeia.
Mais do que isso o rapaz não fala. Cala-se, deixando claro a situação de opressão em que vive. ''Queria sair desta vida'', resmunga. Paulo só volta a falar quando provocado com um questionamento: acontece de riscar o carro de alguém que se recusa a pagar? ''Não pode. Por aqui ninguém faz isso. A polícia está de olho na gente'', enfatiza.
Aparecido Godinho, 36 anos, ao contrário de Paulo, pode revelar seu nome sem problemas. Há muito tempo no ramo - ele cuida de carros desde os 11 anos e já teve até registro em carteira quando trabalhou na Zona Azul -, Godinho não esconde que os pontos de cuidadores de carro são comercializados em Londrina.
''Eu já vendi quatro pontos. Um deles, em frente ao Museu Histórico, na Rua Benjamin Constant, onde trabalhei por três anos, por R$ 1,5 mil. Os outros três vendi por valores menores. Para você ter uma idéia, o cara que comprou esse ponto de mim na Benjamin Constant alugou para outro por R$ 15 por dia'', comenta.
Para Godinho, cuidar de carros pode ser um bom negócio. Basta levar a ''profissão a sério''. ''O cara que sabe trabalhar, tem vontade, paciência e o dom para cuidar de carros, se dá bem em qualquer canto da cidade. O segredo é a educação e o respeito. Não adianta discutir com motorista. Sei que a rua não tem dono'', ressalta o flanelinha. Ele também sabe muito bem como conquistar e comercializar o espaço que ele diz não pertencer a ninguém.
Fabiano Pereira de Souza tem 28 anos e cuida de carro há três. Mora na rua, mas não mora sozinho, como faz questão de dizer: ''Moro com Deus.'' Fabiano não precisou comprar seu ponto. Deu sorte. Por indicação de um amigo achou um lugar na Avenida Souza Naves sem Zona Azul e sem nenhum outro flanelinha ocupando. ''O pessoal vende ponto por aí. Eu, graças a Deus, consegui este aqui e não vendo de jeito nenhum. É o meu ganha-pão'', conta Souza, revelando também que há uma ética entre os flanelinhas que tem ponto fixo: ninguém invade o espaço do outro.
Além do ponto fixo, Paulo, Aparecido e Fabiano têm outras coisas em comum: não cobram antecipado, não estipulam valor e garantem que cuidam do carro. Já no caso dos flanelinhas de eventos, a história é bem diferente...

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