Os caminhos da exclusão digital
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de junho de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O Brasil ainda não conseguiu vencer o analfabetismo e a exclusão digital aparece como um desafio nesse início de milênio. No País em que 79% dos brasileiros nunca puseram a mão no mouse e, aproximadamente 89% jamais acessaram a internet, a simples doação de computadores para comunidades carentes não é suficiente para resolver o problema.
Cerca de 97% dos incluídos digitais se concentram em áreas urbanas. A estudante Sheila Medeiros, 12 anos, moradora no Jardim Catuaí (Zona Norte) é um desses brasileiros ameaçados de não se conectar às novas tecnologias.
Sheila mora com os avós, uma empregada doméstica e um porteiro. A garota e os outros dois irmãos menores não têm computador em casa. Eles estão há mais de um mês esperando pelo início de um curso de computação, que deve ser oferecido pelo Centro Cultural da Região Norte Lupércio Luppi, na Avenida Saul Elkind (Zona Norte).
Ela poderá ser uma das beneficiadas pela doação de 12 computadores para um laboratório de informática, que deve começar a funcionar no máximo em 15 dias.
As máquinas foram doadas pela Intel em maio, mas a instalação dependia da adequação de um espaço na biblioteca do Centro para a criação de uma sala. A obra já foi concluída.
A rede que já atendia aos oito computadores conectados à internet, cedidos pela Associação de Pais e Amigos de Portadores de Síndrome de Down - APS Down, também teve que ser ampliada.
Sheila e outros moradores da região atendidos pelo Centro poderão frequentar o curso de informática básica, que deve ser oferecido em dois turnos. A previsão é de atender cerca de 300 pessoas com duas turmas pela manhã e outras duas no período da tarde. ''Dois professores serão cedidos pela Sercomtel'', afirma a coordenadora do Centro Cultural, Neide Alves Silva.
Para que a inclusão digital atinja o maior número de londrinenses é preciso superar outras dificuldades, além da falta de computadores.
Inaugurada em 2002, com recursos da Fundação W. K. Kellogg, a Biblioteca Virtual Comunitária (Zona Sul), já capacitou com curso de informática básica cerca de 400 pessoas. Porém, não consegue dar início a um curso de montagem de computadores porque os interessados não têm condições de pagar a mensalidade de R$ 30,00.
Com a colaboração de uma voluntária, a biblioteca também está com inscrições abertas para um curso de informática básica.
A presidente da Associação das Mulheres Batalhadores, Rosalina Batista, que coordena as atividades na Biblioteca Virtual, acredita que a comunidade, universidades e empresários, poderiam participar mais, através de parcerias.
Muitas vezes, computadores doados correm o risco de permanecer desligados pela falta de recursos para pagar o consumo de energia elétrica.
Atualmente, dos oito computadores doados pela fundação americana, dois estão em manutenção, o que compromete o atendimento dos usuários.
''Trabalhamos hoje com muita dificuldade. A associação não tem recursos públicos, só apoio de empresas privadas. Estamos enviando ofícios para as universidades para que desenvolvam atividades em parceria'', destaca Rosalina, escorando a argumentação com a responsabilidade social das empresas:
''As associações têm que se formar e buscar a comunidade para ajudar. Não dá para ficar com uma pasta embaixo do braço, esperando pelo prefeito ou vereadores. Elas (as associações) têm que cobrar políticas públicas'', conclui Rosalina.


