Os caçadores de conhecimento
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Sérgio Ranalli<br> Enviado Especial 
Manaus (AM) - Que tal trocar uma bela casa no sudoeste do Paraná, com amigos e conforto de sobra, por um insuportável clima quente e úmido, com milhares de mosquitos devorando cada centímetro de pele? Um grupo de estudantes paranaenses aceitou o desafio. Eles participaram, entre os dias 2 e 15 deste mês, do Projeto Rondon, em municípios do Amazonas, Pará, Goiás e Roraima. Lá eles enfrentaram de tudo.
As ruas são de terra, a alimentação é atípica, as comunidades são cercadas e isoladas por rios e igarapés. Divide-se um quarto com dez, 12 pessoas numa casa flutuante. É comum enfrentar até um dia inteiro de barco, com bela e monótona paisagem da selva. Algumas vezes há um único banheiro. Trabalha-se do alvorecer até o fim do último substrato de energia do organismo. Ainda assim, chega-se ao entardecer com os olhos brilhando, a alma revigorada. Os olhos se fecham e a torcida é para que o amanhã chegue num segundo. E ao despertar, tudo começar novamente.
A FOLHA acompanhou parte dessa experiência. Foram dez horas de avião, 18 de carro, dez de balsa e quatro de barco para acompanhar os estudantes paranaenses. Nas cidades visitadas estavam alunos e professores da região Sudoeste, da União de Ensino do Sudoeste Paranaense (Unisep) e Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) - campus de Dois Vizinhos.
Cada equipe contou com seis alunos e dois professores. Futuros advogados, zootecnistas, engenheiros ambientais e administradores ficaram 15 dias na Amazônia, em cidades nas proximidades de Manaus. No entanto a equipe da UTFPR ficou dez dias morando num flutuante, visitando comunidades nas margens do Rio Solimões. Quando em terra firme (expressão usada pelos moradores locais para designar aqueles que não moram em áreas alagadiças), se fixou em Bela Vista, distrito de Manacapuru.
Já a equipe da Unisep atravessou as águas do Rio Negro e aportou em Manaquiri, pequena cidade de 17 mil habitantes, localizada a 110 quilômetros de Manaus. "O Projeto Rondon é algo voltado para o estudante. Quando você tira o universitário da sua cidade de origem e traz para uma comunidade distante e interioriza-o na Amazônia, é uma experiência que eles não vão esquecer jamais. Em Manacapuru, os estudantes da UTFPR passaram dez dias num barco viajando, foi o único município onde tiveram essa oportunidade", resume o coronel da reserva José Paulo da Cunha Victorio, coordenador da operação na Amazônia.
Inserir jovens estudantes universitários, futuros formadores de opinião, numa realidade diametralmente oposta à que vivem leva os acadêmicos a encararem as diferenças sociais, culturais, geográficas e climáticas do Brasil. O choque derruba o muro dos pré-conceitos, leva inevitavelmente à reflexão.
Nascida na roça e acostumada ao trabalho na lavoura, Marissonia Bortoloto, 22 anos, sonha em vestir a toga de juíza. A experiência lhe rendeu uma lição para seu futuro profissional: "apesar das leis serem as mesmas, as coisas aqui funcionam de outra forma. A gradação do desenvolvimento é diferente, então temos que saber agir de acordo com o local no qual estamos, com a mentalidade das pessoas da região. Porque dependendo do lugar que eu for na minha profissão eu vou conseguir parar e analisar esses pontos para depois começar a trabalhar".
Com os rostos e roupas encharcadas de suor, num calor beirando 40 graus, todos parecem compartilhar das mesmas impressões e perguntas sobre a população ribeirinha. "Como conseguem ser felizes com tão pouco?", indaga um estudante. "É uma população que parece não ter muita preocupação com o dia de amanhã, eles vivem hoje, trabalham hoje para comer hoje e amanhã é outro dia", observa, surpreso, Gustavo Baczinski, estudante de Engenharia Ambiental da Unisep, morador de Francisco Beltrão (Sudoeste).
O tempo na Amazônia parece passar arrastado, a pressa e o estresse dão lugar à calma e à contemplação. Distâncias sempre longas se juntam à dificuldade de transporte. As vias fluviais são as estradas da selva, e ficar cinco, dez dias viajando numa voadeira (pequeno barco equipado com motor) faz parte da rotina.


