Textos: Giovani Ferreira
Fotos: Albari Rosa
De Curitiba
O descontentamento dos usuários e os impasses político e administrativ o criados em torno do assunto colocam em debate o modelo das concessõ es das estradas no Brasil
A insatisfação entre os usuários, as concessionárias e o próprio poder público, vem revelando uma série de vícios e falhas de concepção contratual que estão comprometendo o modelo de concessão das rodovias nacionais. Tarifas que contrariam a realidade econômica, o estado de manutenção e conservação das estradas e os envolvimentos políticos e administrativos denunciam que a modernização das estradas brasileiras ainda não aconteceu.
Assim como em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Paraná o processo de concessão de rodovias ainda está longe de ser considerado o ideal. Uma equipe de reportagem da Folha percorreu os mais de dois mil quilômetros de rodovias privatizadas, colhendo depoimentos de usuários, registrando os flagrantes de perigo e constatando a realidade das estradas do Estado pós privatização.
Ao fim de uma semana de viagem, pôde-se concluir que nem mesmo o trabalho básico de manutenção vem sendo desenvolvido em alguns trechos concessionados. O comprometimento do programa Anel de Integração, através do qual o governo do Estado repassou a administração das estradas para a iniciativa privada, é vísivel em cada quilômetro de rodovia pedagiada.
São raras as exceções onde a rodovia apresenta excelentes condições de tráfego, conforme previa o projeto que criou o Anel de Integração. Sinalização precária, falta de terceira pista e acostamentos impraticáveis destacam-se entre os principais problemas verificados ao longo das estradas que cortam o Paraná. Nem mesmo os buracos, que apesar de serem menores e em número mais reduzido, desapareceram das rodovias.
O descontentamento do usuário, que concordou com a privatização esperando a modernização das estradas, é o retrato de um projeto até o momento mal sucedido. Entre os principais prejudicados e também contrários à forma como a privatização foi implantada estão os caminhoneiros. Em seus depoimentos os motoristas são unânimes ao afirmar que não são contra a cobrança do pedágio, desde que seja um preço justo e que haja maior segurança nas estradas.
No comparativo feito pelos motoristas consultados pela Folha, os problemas relacionadados à privatização das rodovias não são verificados somente no Paraná, mas sim em todos os Estados que adotaram essa política. Apesar de as falhas constatadas serem na maior parte pontuais e particulares em cada localidade, a verdade é que a privatização ainda não conquistou o usuário e nem está conseguindo garantir maior segurança nas rodovias brasileiras.
Entre os demais usuários, que não os caminhoneiros, a opinião não chega a ser diferente. A maioria dos depoimentos são favoráveis ao pagamento do pedágio, condenando apenas a falta de obras na recuperação das rodovias. Os usuários cobram investimentos em infra-estrutura viária e uma definição, principalmente no caso do Paraná, do governo e das concessionárias sobre o futuro da privatização das rodovias no Paraná.
Enquanto o usuário espera, trafegando por rodovias precárias e pagando um preço incerto, o governos estaduais e as concessionárias discutem, nas esferas política, administrativa e jurídica, novas regras e conceitos de privatização de rodovias. No Paraná o principal impasse do momento está em torno do reajuste das tarifas. De um lado está o governo, tentando um acordo administrativo, e de outro as empresas responsáveis pelas estradas, que brigam na Justiça para garantir aumentos que chegam a 116%.
No Rio de Janeiro o usuário paga o pedágio mais caro do Brasil, em São Paulo uma CPI investiga as concessões, no Rio Grande do Sul o governo incentiva o boicote e em Santa Catarina o processo de privatização está emperrado.

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