Os braços abertos de Londrina
Silvana Leão
De Londrina
Em um dos verões mais quentes registrados em minha memória eu pus os pés pela primeira vez em Londrina. Era janeiro de 84 e o ônibus fretado pelo colégio do interior de São Paulo, responsável por nossa vinda, estacionou de manhãzinha no câmpus da Universidade Estadual de Londrina (UEL) para recebermos o cartão do vestibular. Belíssima visão a que tive ao abrir os olhos. Perobas-rosa e jardins bem cuidados se encarregaram de me encantar e talvez naquele momento eu tenha decidido, ainda inconscientemente, criar raízes nesta terra.
Vieram os anos de faculdade, o primeiro emprego, as amizades, as experiências jamais vividas em outro canto e, acima de tudo, a receptividade dos que já estavam aqui. E eu segui a trilha de milhares de outras pessoas que hoje engrossam o número de habitantes do município. A gente vem, se enamora e não quer mais sair. Londrina tem esta característica (talvez a principal), de abrir os braços e acolher com carinho.
Já ouvi várias explicações para este encantamento dos que vêm de fora. Localização estratégica, clima, boa infra-estrutura em uma cidade que ainda conserva ares de interior, qualidade de vida (que até virou jargão oficial) e tudo mais. Não discordo, mas continuo achando que o grande segredo está mesmo nas pessoas. Sem pieguismo, talvez seja um dos poucos lugares do mundo onde é possível sentir-se em família.
E que ninguém diga que estou confundindo Londrina com Passárgada. Nós repórteres acompanhamos de perto a miséria que aumenta, a violência que mostra sua cara diariamente, os problemas gerados pelo número cada vez maior de carros pelas ruas, o desemprego. Os londrinenses não escapam da crise que assola o País, da corrupção e das complicações de toda cidade que cresce de repente.
Aqui, mais que em qualquer outro lugar, é possível se locomover da favela para espaços nobres em poucos minutos. A miséria e a riqueza caminham muito próximas e até se confundem.
Mas continuamos podendo caminhar pelas ruas com certa tranquilidade, respirando o cheiro bom e único da cidade que vem principalmente com a brisa da noite, quando abrimos a janela de casa , vendo amigos e conhecidos por aí. Me lembro da grande festa à beira do Igapó em comemoração aos 50 anos da cidade. Bom estar aqui ainda nestes 65 anos.
Melhor ainda é saber que Londrina é muito mais do que isso tudo que falamos. A Folha publica hoje um caderno especial de aniversário do município mostrando aspectos que tornam mais fácil o entendimento deste rápido crescimento.
Tecnologia, industrialização, os caminhos traçados para o futuro e até cartas de intelectuais franceses dando sua impressão deste canto do mundo. Coisas que emocionam a nós, que adotamos este chão para ver nossos filhos crescerem e mais ainda os que primeiro chegaram, enfrentando adversidades. Coisas que, naquela manhã de janeiro de 84, nem de longe passavam pela minha cabeça.





