Os bebês que já nasceram lutando
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sábado, 05 de janeiro de 2008
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Apenas um mês de vida e já travam a luta tão brasileira: primeiro, contra a precariedade da saúde pública, materializada na bactéria que infecta a UTI neonatal superlotada. Depois, para ter um futuro além das portas de uma entidade assistencial. Nascidos prematuros no dia 26 de novembro de 2007 no Hospital Universitário (HU), os gêmeos londrinenses vieram ao mundo com sete meses de gestação e pouco mais de um quilo cada - plumas carregando o peso do mundo.
Um deles está entre os bebês isolados na UTI para recém-nascidos do HU devido ao aparecimento de uma bactéria, há 15 dias. Infectado por uma espécie multirresistente, o menino está em observação e, segundo o hospital, não desenvolveu sintomas. O irmão teve alta no início de dezembro, mas também não foi para casa: seguiu do hospital direto para o Centro de Apoio à Recuperação Infantil de Londrina (Cari).
A diretoria do Cari informou que a entidade acolheu a criança provisoriamente a pedido da Vara de Infância e Juventude. O bebê deve ficar no local pelo menos até ganhar peso, sob supervisão médica. A mãe, uma adolescente de 15 anos, divide-se diariamente entre o Cari e o HU para amamentar os recém-nascidos. Dizendo-se decidida a ficar com os filhos, ela relatou a história conturbada da família.
Bárbara (nome fictício), contou que foi a mãe dela quem procurou a Justiça dizendo que a filha não tinha condições de cuidar dos bebês. ''Ela disse que eu vivia na rua e que já fui presa. Mas isso foi há dois anos, e só por um dia'', defendeu-se a moça. ''O fato é que eu e minha mãe nos odiamos. Acho que ela tem ciúmes porque minha avó, com quem eu moro, sempre me deu tudo'', disse.
A garota é a mais velha de seis irmãos. Segundo ela, a caçula, hoje com seis anos, foi ''dada'' para outra mulher quando tinha três meses. Tempos depois, a mãe teria entradp na Justiça para reaver a filha. ''Acho que ela quer meus bebês'', afirma.
Não é de se estranhar que a nova família já nasça desestruturada. Do pai dos gêmeos, Bárbara só sabe o primeiro nome. ''É um rapaz que conheci na última Expô (Exposição Industrial e Agropecuária de Londrina, realizada em abril). Eu o vi uma única vez. Ele veio só para trabalhar, ficou dormindo num trailer e quando acabou a feira voltou para a cidade dele, que não sei qual é'', conta, arrematando com o mesmo ar descompromissado: ''Vamos ver se na próxima exposição reencontro ele.''
Com escolaridade limitada à 5 série do Ensino Fundamental e sem nunca ter trabalhado, a menina garantiu que quer e pode cuidar dos filhos com o apoio dos avós. ''Quero fazer o supletivo e arrumar emprego. Passar o que passei, quase morrer no parto e ficar sem os dois... Não pode.'' A reportagem não conseguiu mais detalhes sobre o caso na promotoria ou no juizado da Infância e Juventude.
UTI e UCI
O HU voltou a internar recém-nascidos prematuros na UTI e UCI Neonatais. A reabertura ocorreu ontem, porém, a UTI tem apenas dois leitos e a UCI, três vagas. As unidades estavam interditadas desde o dia 21 de dezembro, quando foi identificada a presença de uma bactéria. As crianças que apresentaram resultado positivo nos exames não apresentaram sintomas. Juntas, a UTI e UCI Neonatais estão com 13 recém-nascidos internados. A capacidade total é de 17 leitos.


