Paulo Briguet
Dez anos nesta cidade. Apenas dez anos. No entanto, suficientes para que ela se tornasse uma ante-sala do tempo. Dez anos. Intervalo duradouro o bastante para que os filhos dos amigos cresçam. Tudo aqui é circular como o Zerão, cobra a engolir a própria cauda. Dez anos e a agradável certeza de que nunca sairei daqui.
Nunca mais ir embora desta cidade. Impressão estranhamente comum a todos que a conheceram. Você anda em círculos pelas ruas e as calças claras vão ficando manchadas de terra. Inútil lavar: a cor nunca voltará a ser a mesma, nas calças e na memória.
Místicos dizem que os anjos cumprem uma jornada de trabalho circular: voltam sempre ao mesmo lugar. Se anjos existem, penso eu, devem brigar entre si para bater o cartão-ponto no Zerão e no Lago Igapó, eternos retornos da cidade.
Que me perdoem os místicos, mas não acredito em anjos. Fazendo hora antes de ir para o trabalho na redação do jornal, caminho à beira pobre do Lago Igapó. Desempregados fisgam peixes milagrosamente vivos em meio à sujeira reinante. Do outro lado do Igapó, sempre distante dos meus passos, atingível apenas por braçadas, está a beira rica.
Observo a margem dos ricos e penso naquele velho barbudo. Acho que o nome dele era Carlos. Carlos alguma coisa. O velho dizia: ‘‘Na história, como na natureza, a podridão é o laboratório da vida’’. É. Eu tive um professor comunista no colégio.
Procuro meu pulso esquerdo, quero saber as horas; lembro, pela 794.876ª vez na vida, que nunca usei relógio.
Qualquer cidade é uma caverna à luz do dia, qualquer cidade é um campo de concentração sem guaritas, qualquer cidade é um gulag sem execução de opositores. Mas, se olharmos bem, há guaritas, há opositores sob ataque cerrado. Dizem até que há uma luz do dia.
Mesmo sem saber as horas, sou capaz de luminosa descoberta: o Zerão é uma linha reta. Isso mesmo. Caminhante que julgava estar sobre a cauda do Zerão, eu me encontro agora em trajetória retilínea, rumo ao edifício da Prefeitura. A geometria ficou louca.
Não marquei horário com o prefeito, mesmo porque, conforme já expus, não tenho relógio. Apenas sei que ao chegar nesta cidade – dez anos – ele já era prefeito, e agora é outra vez, e poderá ser mais uma. De repente, o céu está carregado de nuvens.
Abandono a Prefeitura. Com a devida licença, dou as costas ao Poder Executivo. Volto-me, outra vez, ao tapete verde das margens do Igapó.
Passa uma veloz moça ruiva, que controla o desempenho da corrida diária pelo relógio de pulso. Aperto o passo e me aproximo para perguntar as horas, mas ela não responde. Vejo que a moça usa fone de ouvidos; concluo que a tentativa é inútil. Ela vai embora sem me dar uma palavra.
Não digam a ninguém, mas estou certo de que a moça ruiva foi a primeira pessoa a me contar sobre esta cidade no Norte do Paraná. Aconteceu há muito tempo. longe daqui. Perdida na velocidade do jogging, será que a moça não me reconheceu? Ou o tempo nos torna assim tão indiferentes?
No sentido contrário, vem caminhando um senhor. Pelo andar, reconheço meu pai. Sei que ele costuma usar relógio e, quando está na cidade, gosta de caminhar perto do Igapó. Finalmente terei a quem perguntar as horas! Daqui a pouco preciso ir trabalhar.
Mas, chateado, deduzo que meu pai não pode estar aqui hoje – a não ser em pensamento. E quem caminha em pensamento não sabe dizer as horas. O pai se distancia pela margem.
Reencontro o grupo de pescadores do lago. O mais jovem deles fisga um imóvel peixe. O rapaz está vestido com uma camiseta de campanha para deputado, toda esburacada – mas tem um relógio no pulso. Pergunto que horas são, e ele responde educadamente. Tenho que andar logo para não me atrasar no jornal, ainda mais agora que a chuva está chegando. O rapaz arruma suas modestas tralhas em saco plástico azul. Olhando para pulso do pescador, noto que o seu relógio está tão parado quanto o peixe que ele acaba de colocar no embornal.
Já é hora de ir para o trabalho. Afinal, sou um assalariado. Em poucos minutos, a chuva descerá sobre todo mundo com sua presença feminina e brutal. Ela vem anunciada por ventos do martírio que fazem dos prédios uma caixa de ressonância para uivos humanos, enquanto os pescadores seguem o rumo da periferia. Os místicos vivem reafirmando o parentesco entre anjos e ventos. Daí a crença de que os anjos, como os pescadores do Igapó, não recebem salário, comissões ou cartas-convite.

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