Célia Polesel
De Londrina
Especial para a Folha
Nivaldo Lino de Oliveira, 29 anos, para os amigos é o ‘‘Negão’’, para os colegas de trabalho é o ‘‘Nego Lino’’. Bonito e simpático, ele leva uma vida dupla. Durante a semana é um respeitável agente penitenciário que cuida da rotina dos presos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Nos finais de semana encarna os mais diversos personagens no grupo de teatro Boca de Baco.
Nivaldo nasceu em Jataizinho (21 km a leste de Londrina) e veio para Londrina com oito anos, junto com a família. Diz que sempre foi muito tímido e que queria fazer alguma coisa que o ajudasse a se comunicar melhor com as pessoas. A oportunidade surgiu quando fazia um estágio na Caixa Econômica Federal, em 1990. ‘‘Na época eles estavam montando um grupo de teatro e então o Luciano (Bitencourt) me convidou para participar. Eu topei e faço parte do Boca de Baco há 9 anos.’’
Depois que saiu da Caixa, Nivaldo trabalhou seis meses em uma oficina mecânica, quando prestou concurso e entrou para a Polícia Militar (PM). Mas nunca deixou de fazer teatro. ‘‘Sempre havia aquelas brincadeiras por parte dos companheiros de farda. ‘Será que estou trabalhando com homem ou com florzinha?’ Existe o preconceito sobre o homem que faz teatro.’’ Ele explica que por parte dos superiores não era tanto, mas os companheiros de trabalho eram bem preconceituosos. ‘‘Eles tentavam fazer uma brincadeira, mas eu percebia que no fundo era verdade.’’
Hoje Nivaldo é agente penitenciário. ‘‘Os colegas de trabalho sempre tiram um sarro. Mas é bem menos do que quando eu estava na PM. Eles pegam no pé mesmo é quando sai alguma foto em que eu estou vestido de mulher. Aí recortam, colam na parede, é uma semana de gozação.’’
O agente-ator diz que encara tudo ‘‘numa boa’’, porque gosta do que faz. ‘‘Uma coisa tira o stress da outra. Quando estou cansado da rotina da PEL vou para os ensaios e esqueço de tudo. Quando estou de saco cheio de diretor, ensaio, dos outros atores tenho a rotina da penitenciária. Não quero deixar nenhum dos dois.’’
Quanto aos presos, Nivaldo conta que às vezes eles perguntam: ‘‘Seo Nivaldo, o senhor ainda está fazendo teatro? Mas é tudo com o maior respeito. Eles sabem que não podem tomar liberdade com os agentes. Mas a gente percebe que o cara está doido para tirar um sarro ou fazer uma gracinha.’’
Para conciliar o trabalho com os ensaios das peças, ele explica que o grupo concordou em só realizar os ensaios nos finais de semana à tarde. ‘‘Nós decidimos isto porque não sou só eu que tenho outro emprego. Então só preciso me virar para conseguir ser liberado para as apresentações durante as temporadas, que acontecem nos fins de semana.’’
Segundo Nivaldo, na penitenciária é mais fácil conseguir a liberação para as apresentações do que quando estava na PM, pois consegue trocar o plantão. O regime de trabalho é de 24 por 48 horas, ou seja, trabalho de 24 horas para um descanso de 48 horas. ‘‘Mas não é moleza ser liberado, eu sempre pago horas quando preciso sair’’, diz.
‘‘Na época que estava na PM era mais difícil ser dispensado. Uma vez nós tínhamos uma apresentação no Zaqueu de Melo (Teatro) e eu estava de serviço. Pedi para trocar, ser dispensado, mas eles disseram que não podia. Então fui até o Hospital Ortopédico, disse que tinha machucado o joelho e engessei. Liguei para o comando e falei que não podia trabalhar no final de semana porque estava engessado. Aí me apresentei, os meus companheiros ficaram morrendo de medo de aparecer alguém no teatro, mas não veio ninguém. Tive que ficar mancando uns dias para não desconfiarem, mas no final deu tudo certo.’’
Em várias ocasiões Nivaldo ‘‘matou’’ os avós e ‘‘casou’’ irmãs. ‘‘Uma vez o grupo tinha uma viagem marcada, eles não quiserem me dispensar. Então eu disse que minha avó tinha morrido. Uma outra vez eu casei minha irmã, fui até padrinho. Só não matei minha mãe porque daí eles mandam coroa de flores. Já imaginou o susto dela?’’
A situação mais complicada para o agente-ator aconteceu com seu filho mais velho, Cleverson, hoje com 11 anos. O menino, na época com oito anos, contava para todos os amigos que o pai era agente penitenciário, cuidava dos presos e era muito macho. Essas vantagens que os meninos gostam de contar sobre os pais. ‘‘Um dia saiu uma foto minha vestido de mulher. Era uma apresentação do Abajur Lilás, no qual eu fazia o papel de uma prostituta chamada Leninha. Um dos amiguinhos dele recortou a foto e foi lá em casa logo cedo, mostrou para o meu filho e falou: ‘Olha aí, você não falou que o seu pai cuidava dos presos? Olha ele vestido de mulher no jornal. Seu pai é boiola.’’
Foi difícil para Nivaldo fazer o filho compreender que ele estava apenas representando um papel. ‘‘Eu o levei para assistir a todas as peças e pedi para os meus companheiros do grupo conversarem com ele. Levou um tempo, mas ele compreendeu.’’
Quanto às dificuldades enfrentadas nas duas profissões, Nivaldo diz que na penitenciária nunca se sentiu ameaçado. ‘‘Apesar da gente ver sempre estas revoltas em outras prisões, nunca me senti em perigo. Nossa penitenciária é nova e por isso não existe o problema de superlotação. Nós também tivemos um bom treinamento. Nesses cinco anos nunca fiquei preocupado ou inseguro.’’
No teatro, diz que a coisa mais difícil é interpretar mulher. ‘‘A mulher é muito complicada. Na época que eu fazia a Leninha do Abajur Lilás era muito difícil. Eu colocava um vestido em que os braços ficavam para fora. Era estranho, eu tentava ser mais feminino, mas acabava ficando caricato. Parecia um homem vestido de mulher, nunca uma mulher. Mas o mais importante é que o teatro me ajudou a me expressar melhor, a comunicar minhas idéias mais claramente para as pessoas.’’

PERFIL
Nome: Nivaldo Lino de Oliveira
Idade: 29 anos
Profissões: agente penitenciário e ator de teatro
Peculiaridade: motivo de gozação dos colegas de trabalho

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