ORKUTCÍDIO 'Deletei meu Orkut'
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de março de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Ferramenta de reaproximação das pessoas? Ou uma bela forma de espionar o que sucede na vida alheia? Partidários da segunda alternativa, alguns londrinenses disseram ''adeus'' ao Orkut. E deletaram suas respectivas contas.
O advogado Pedro Augusto Vantroba, de 30 anos, decidiu desvincular-se do site de relacionamentos por um motivo simples: não recebia mais cartas ou telefonemas de muitos de seus amigos. ''Hoje em dia, o mundo está impessoal. Acredito que o Orkut, com seus scraps e mensagens, só veio reforçar essa impessoalidade, banalizando os relacionamentos''.
Para Vantroba, a diversão contida no site é finita. ''Você reencontra amigos e ponto final. Você se satisfaz se o fulano está magro, gordo, rico ou pobre e pronto. Não há uma continuidade'', acredita.
Inscrito por um ano e três meses no Orkut, Vantroba não pensa em voltar. ''Não vejo finalidade para mim. Mas não recrimino quem mantém. Acredito que o Orkut é uma ferramenta de auto-indulgência, uma espécie de competição para ver quem é o mais bonito, o mais popular, o mais legal...''.
Estudante do ensino médio, Ana Vitória Pagan Cardoso, 16 anos, deu ''adeus'' à rede de relacionamentos há pouco mais de 120 dias. ''O motivo principal foi a segurança. Depois que começaram a sair nos jornais e revistas os problemas relacionados ao Orkut, como os sequestros e outras coisas, decidi sair''.
Estaria Ana Vitória sentindo falta de acessar o site? ''Não notei diferença alguma. Acho muito mais fácil mandar mensagens ou usar o telefone, situações em que ninguém expõe ninguém'', sustenta Ana Vitória, que recorre ao login e à senha da irmã, Alexandra, quando quer dar um giro pelas páginas do site.
Profissional de turismo, Carla Roveri, 25 anos, e a amiga Vivian Bonafini, optaram quase à mesma época em se desvencilhar do Orkut. ''Minha vida pessoal parecia estar em uma vitrine virtual, onde todo mundo tinha acesso livre. É muita exposição, pelo fato de circularem ali não somente amigos. Para completar, também tem a questão dos orkuts falsos, nos quais as pessoas roubam suas fotos, mandam mensagens sem identificação, enviam vírus'', afirma Carla.
Para Vívian, o que era diversão acabou se convertendo em transtorno. ''Estava sem paciência para atualizar a página. De quebra, estava com medo de colocar fotos, enfim, já não valia mais a pena. Não vejo mais motivos para ter uma nova conta, mas com certeza os fofoqueiros de plantão iriam adorar'', alfineta.
Antes de dizerem ''adeus'' ao site de relacionamentos, Carla e Vívian adotaram a mesma estratégia: ''importaram'' a lista de contatos para a caixa de e-mails. ''Hoje, ninguém mais sabe de nossas vidas, o que é muito bom'', finalizam.
Nas palavras da psicóloga Lucianne Fernandes, não é o perfil em si que revela o quem é quem. ''A invasão não se dá com o que eu exponho, mas sim com o que expõem de mim. Um exemplo: a pessoa pode até apagar os recados, mas, ao aceitar um depoimento, já está expondo quem é''.
Sobre deletar ou não o Orkut, Lucianne é reticente. ''Precisamos tomar cuidado para não deletar outras coisas de nossas vidas. Ao optar por sair, é sempre bom questionar por que se está fazendo isso e deixar a porta aberta, sabendo se posicionar. Isso vale não somente para o Orkut, mas para as escolhas da vida'', salienta.


