Londrina – O olhar tímido do menino de apenas 12 anos não esconde a tristeza de presenciar cenas diárias de violência dentro da própria casa. João (nome fictício) fala pouco, mas o suficiente para transmitir o drama vivido por ele. "É difícil", suspira após dizer que nunca havia conversado sobre o assunto. Após receber várias orientações e informações sobre violência doméstica, ele espera levar o debate para dentro de casa. "Vou tentar dizer que não pode bater e que dá para denunciar", afirma com o olhar distante de quem já pensa nas dificuldades que terá que enfrentar entre família.
João e outros 30 adolescentes participaram de uma atividade na manhã de ontem no Centro de Formação Cidadã do Jardim Santiago, na zona oeste de Londrina. Durante uma hora, eles acompanharam atentamente as explicações da assistente social Cristina Rossi, da prefeitura, e conversaram com os colegas sobre o tema e a Lei Maria da Penha.
Para Cristina, os adolescentes se tornam multiplicadores da informação e ajudam no combate a violência contra a mulher. As agressões começam cada vez mais cedo, segundo ela. "A quantidade de jovens que procuram o atendimento tem aumentado. Não temos estatísticas, mas é importante que os adolescentes saibam desde cedo que um empurrão, que xingamentos e que outros comportamentos são tipos de violência e precisam ser combatidos", ressalta. "Se essas atitudes forem encaradas com naturalidade nesta fase, elas poderão se tornar uma agressão contra mulher no futuro", completa.
Além do pequeno João, vários adolescentes convivem com a rotina de agressões. "Perto da minha casa tem uma mulher que apanha no meio da rua, sempre no final de semana. Tem gente que tenta separar, mas tem gente que fala ‘não se mete não, porque ela merece’. É muito triste, mas a gente vê e também nem conversa sobre isso em casa", conta Maria (nome fictício), de 13 anos.
A falta de diálogo na família também incomoda Carolina (nome fictício), de 14 anos. Ela participa há quatro anos das atividades do Centro de Formação Cidadã. Com personalidade forte, bem articulada e informada sobre o assunto, ela alertou a irmã mais velha de 21 anos a denunciar o companheiro. "Minha irmã sofria muito e o rapaz era conhecido da família. Depois que eles começaram a namorar, a gente percebeu que ele tratava ela mal. Ele batia e xingava. Como aqui (no centro de formação) a gente sempre fala sobre isso, eu disse que ela podia denunciar. Hoje ela casou e vive bem com outra pessoa", resume Carolina. "Em casa, a gente nem se vê e nem conversa direito, mas, se isso acontecer comigo, eu vou atrás dos meus direitos por mais que eu ame o menino", completa.

CONVÍVIO
O Centro de Formação Cidadã do Jardim Santiago atende 100 adolescentes entre 12 e 17 anos por meio de uma parceria entre o Provopar e a Prefeitura de Londrina. No contraturno escolar, meninos e meninas participam de oficinas e discussões com o objetivo de aproximar pais e filhos e melhorar o convívio em sociedade. "Trazer temas assim para o debate mostra a esses adolescentes que eles podem mudar essa cultura e que não precisam seguir o mesmo caminho, viver a mesma realidade de violência entre os pais ou conhecidos. A gente trabalha no resgate da autoestima e traz questões para que eles tirem as próprias conclusões e pensem no futuro", destaca a coordenadora do CFC, Elen Fabiana da Silva.
Aproximadamente, 450 adolescentes são atendidos nos nove CFCs existentes em Londrina. Eles fazem parte de famílias já assistidas pelos serviços da rede municipal. Os debates em parceria entre as secretarias da Mulher e da Assistência Social devem continuar nos outros pontos da cidade e a intenção é levar as orientações até os bairros mais distantes do centro para reforçar a necessidade de denunciar casos de agressão.

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