O garoto de cabelos louros e cacheados entra sala, as outras crianças arregalam os olhos. Ele está de capa e chapéu. Se não fossem os adereços ninguém teria dúvidas de que era Felipe, um dos meninos mais levados da classe.
Mas naquele momento, o garoto de cinco anos está incorporando um personagem que todos admiram e querem ser: o João Esperto, personagem central da cartilha ABC da Segurança, uma iniciativa do Serviço de Investigações de Crianças Desaparecidas (Sicride), órgão da Polícia Civil.
Durante toda a semana, a escola Alfa, um colégio particular na área central de Londrina, está fazendo uma série de atividades com seus alunos para espantar o fantasma do desaparecimento de crianças, drama que atinge todas as classes sociais e que apresenta números crescentes no Paraná.
O João Esperto, interpretado por Felipe, vai orientando os amiguinhos, que, sentados, fazem um semicírculo em torno dele. Essa é a essência do trabalho de prevenção que o Sicride pretende implantar em grande parte das escolas do Estado.
Uma ofensiva para que não se repitam casos como o do garoto Guilherme Caramês Tiburtius, que desapareceu aos oito anos em junho de 1991, ou de Leandro Bossi, desaparecido também aos oito anos em maio de 1992, ou ainda de Ewerton de Lima Gonçalves, que desapareceu no aniversário de quatro anos em dezembro de 1988. Na cartilha, estão fotos de outras 12 vítimas, que certamente não receberam nenhuma orientação do gênero.
Enquanto seus pequenos interlocutores vão segurando a inquietação, João vai explicando a seus admiradores todas as providências que os mantém ''perto da mãe e do pai'' (leia quadro ao lado).
Logo depois, um segundo personagem, um garoto com roupa de vilão, que chama uma amiguinha durante uma festa para ''dar uma volta''. Ele é insistente. Recebe um não atrás do outro. A reação da platéia é implacável. Vaiam e enxotam o garoto. Depois, comemoram. Naquele momento João Esperto está vencendo a guerra.
Além da encenação, estão previstas aulas de pintura do personagem, reuniões com os pais e palestras com policiais do Instituto de Identificação.
Até lá, o João Esperto do Alfa, Felipe Frasson Fusco, 5 anos, vai ficando afiado na lição. Já sabe falar seu nome completo, a rua onde mora, o nome e a profissão dos pais. Para ele, é bom saber destas coisas porque senão ''você vai para longe de casa''.

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