Orgulho. E, agora, reconhecimento
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 1997
Da Redação 
Depois de tantos anos, a memória já não ajuda muito. Mas o orgulho de ter pertencido à FEB (Força Expedicionária Brasileira) e lutado na Itália, defendendo o Brasil e o resto do mundo da agressão nazi-fascista, na Segunda Guerra Mundial (1939/1945), continua intacto no semblante dos pracinhas Antonio de Oliveira Ramos, 72 anos e Custódio Florentino de Lima, 75 anos. Morando atualmente em Londrina, onde se conheceram, os dois fazem parte de um grupo de 12 pracinhas que vivem hoje na Cidade.
E, se a altivez de ambos ilustra esta página hoje, é para lembrar aos seus esquecidos compatriotas que ontem foi comemorado o maior feito do Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial: a tomada de Monte Castelo. O sargento Florentino e o soldado Ramos, estavam lá. O primeiro, lá na frente, de metralhadora na mão, trocando tiros com os alemães e, na retaguarda, o artilheiro Ramos mandando balas de canhão pra cima do inimigo.
Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1944. Na praça Mauá, dois escalões da FEB, o 2º e o 3º, com 10.314 homens, embarcam nos navios americanos General Mann e General Meighs rumo à Itália. Lá, iriam se juntar ao 1º escalão de expedicionários - 5.075 homens - que partira antes, a 2 de julho daquele mesmo ano.
Na plataforma de embarque, o presidente/ditador Getúlio Vargas, depois de desejar boa viagem e sucesso aos pracinhas, disse que viajassem tranquilos, pois nós ficaremos aqui cuidando das suas famílias. Despedidas feitas, os navios partiram acompanhados de dezenas de outras embarcações de guerra do Exército Americano. E entre os que se alojaram no General Meighs, estavam o soldado Antonio de Oliveira Ramos (então com 19 anos) e o sargento Custódio Florentino de Lima, com 22.
Dois outros escalões ainda embarcariam para a Itália, formando um contingente de 25.334 homens, brasileiros de todos os quadrantes da pátria, muitos deles voluntários, que foram se juntar ao Exército Aliado no norte italiano para guerrear contra os que ameaçavam a liberdade no mundo.
Nascido em Pirajuí, interior de São Paulo, o soldado Antonio de Oliveira Ramos estava servindo o exército na vila militar de Quitaúna, próxima à capital paulista, em 1943, quando foi convocado pela FEB. Ele era da arma da artilharia e fazia parte do 1º Grupo de Obuses Auto-rebocados. Da minha unidade foi todo mundo, chegou a fechar o quartel, lembra o pracinha.
Já o sargento da infantaria, Custódio Florentino de Lima, servia o exército no 1º Batalhão de Carros de Combate, em Recife, Pernambuco, sua terra natal quando, segundo ele, o Ministério do Exército solicitou ao comando da 7ª Região Militar que enviasse 180 sargentos para a FEB.
Eu queria conhecer o mundo, mas não havia jeito. Aí, os navios brasileiros começaram a ser torpedeados pelos submarinos alemães no Nordeste e, em Recife, por causa disso, houve um quebra-quebra nas lojas pertencentes a alemães e italianos. Então, me deu aquele calor, uma vontade de defender a pátria, me apresentei como voluntário, recorda Florentino. Ele conta que, pra ir pra guerra, teve de mentir para a mãe, doente de cama, dizendo que estava indo paro o Rio de Janeiro fazer alguns cursos.
Da viagem, os dois contam que foi um pavor. É que, mesmo com a grande escolta dos navios de guerra norte-americanos, submarinos alemães não deram sossego e atacaram o comboio por diversas vezes e, mesmo que rechaçados pelos contra-torpedeiros, o medo entre os pracinhas era grande.
Foi um sufoco. A gente ficava o tempo todo de salva-vida, não tirava nem pra dormir, mais de 7 mil homens, um aperto danado. Cada vez que tocava o alarme, era aquela expectativa, um medo danado. Quando chegamos em Nápoles, no dia 6 de outubro, aviões de caça bombardeavam e faziam vôos rasantes sobre o nosso navio. A gente encontrava soldado chorando, alegre, nervoso, tremendo, não de frio, mas de medo, lembra Florentino, informando que de Nápoles foram levados para um acampamento nas proximidades de Pisa, norte da Itália, região onde a cobra já estava fumando.
É que, quando o 2º e o 3º escalões chegaram à Itália, o 1º escalão, sob o comando do general-de-brigada Euclides Zenóbio da Costa, com seu inseparável cachimbo no canto da boca, já havia conquistado a confiança do comandante do 5º Exército norte-americano, general Mark Clark, com sucessivas vitórias, principalmente no vale do rio Serchio, ao norte de Pisa.
Mas a guerra acabou e não é difícil perceber que esses homens que arriscaram a vida pela Pátria e pela liberdade estão se sentindo esquecidos, principalmente por parte dos mais jovens que, acredita Ramos, nem sabem que a gente existe. Também se magoam com a indiferença daqueles que ficaram aqui no bem-bom, enquanto eles lutavam contra o fragelo nazista que ameaçava a humanidade.
Ganhando, respectivamente, R$ 1.600,00 e R$ 1.210,00, o sargento Florentino e o soldado Ramos não falam de dinheiro. O soldado Ramos apenas observou, com uma certa mágoa, que quem serviu aqui no Brasil, ganha mais do que quem foi lá na barba do alemão.
A última boa lembrança que têm foi o tratamento carinhoso que receberam na Itália quando lá voltaram em 1.993 para um passeio que durou 40 dias. Foram tratados como heróis de guerra. Nos receberam com muito carinho. Ficamos na casa de um italiano chamado Luigi Grassi, em Ciano, perto de Firenze. Nos deram todo o acolhimento e nos levaram a todas as cidades onde combatemos, conta Ramos.
E, para provar que o tratamento por aqui não é o mesmo, o paulista de Pirajuí desembucha: Nós devíamos ser mais bem acolhidos aqui no Brasil, mas não somos. Os jornais, mesmo quando falam de nós, é um pedacinho assim que quase não dá pra ver, reclama o pracinha que, a partir de hoje, não terá mais do que reclamar, pelo menos no que diz respeito à imprensa já que, em vez de um pedacinho, os pracinhas ganharam uma página inteira na Folha.


