O termo é bastante parecido: ''imin'', em japonês, significa imigração. Na segunda-feira a comunidade nipo-brasileira comemora o seu Imin 99, ou seja, os 99 anos da imigração japonesa ao Brasil. A data, desconhecida pela maioria da população, é bastante celebrada pelos nikkeis (descendentes de japoneses), em cerimônias e festas.
É por isso, aliás, que boa parte dos festivais japoneses na região de Londrina, como a ExpoJapão, que terminou no último domingo, acontecem nessa época. Além disso, a comunidade japonesa está preparando uma grande festa para 2008, quando se completam 100 anos da chegada dos primeiros imigrantes nipônicos.
Mas quem são esses ''japoneses'', com os quais o Norte paranaense já está tão habituado? O que eles preservam de suas tradições, e o que eles já absorveram da cultura brasileira?
Partindo do estereótipo: eles comem sashimi (o famoso ''peixe cru'') sim, mas adoram uma feijoada. ''Entre um e outro, prefiro a feijoada. Mesmo porque não gosto muito de peixe, sou carnívoro'', confessa Fumio Okuzono, 55 anos, que tem um bar em Londrina cujos carros-chefes são justamente essas duas iguarias.
''Minha feijoada tem pouca gordura, as carnes precisam estar no ponto certo e o tempero é diferente'', explica, acrescentando que a receita foi desenvolvida por ele mesmo. O empresário também aprendeu sozinho a cortar o sashimi de tilápia, prato que, apesar de bastante consumido por aqui, não existe no Japão.
Okuzono é filho de imigrantes, mas revela que sabe preparar mais pratos da culinária brasileira, como caldo de mocotó, dobradinha, rabada com polenta e torresmo, do que da japonesa.
Também adotou o modo expansivo de se relacionar dos brasileiros. ''Têm coisas que aprendi com meus pais mas não concordava, como a orientação para fazer amigos e de se relacionar só com japoneses. Então, não repassei isso pros meus filhos'', confessa, assumindo porém que se sente mais japonês do que brasileiro.
Trabalhando em uma carga horária exaustiva, que adentra a madrugada, ele herdou dos japoneses a força de vontade e dedicação ao trabalho. E convive bem com essa mistura aparentemente tão contrastante. ''Acho importante assimilar a cultura brasileira e também conhecer e divulgar a japonesa. Já há uma mistura interessante e esse processo deve continuar. Não dá para regredir'', conclui.
Integração - ''Sou brasileiro, nasci e estudei aqui'', já vai esclarecendo o tradutor juramentado Miyoshi Egashira, 73 anos. Único profissional na cidade habilitado a fazer traduções oficiais em japonês, Egashira é casado com uma professora de língua japonesa, e acredita que a língua é um instrumento importantíssimo para se aprender outra cultura.
''Por intermédio do idioma é possível analisar a fundo a cultura de um país'', justifica. Suas duas filhas, porém, não falam japonês. ''Educar não é forçar. Elas foram familiarizadas com o idioma quando crianças, e depois puderam optar. Mais importante que aprender outro idioma é dominar a língua pátria. E isso elas fizeram'', alega o tradutor, que aprendeu japonês por interesse próprio.
Para Egashira, enquanto a segunda geração de nikkeis recebeu muito da educação, cultura e hábitos japoneses, a terceira geração já tem uma integração maior com a sociedade brasileira. ''Isso é muito bom, no sentido de não ficar fechado em uma sociedade isolada. Mas nem por isso se deve esquecer a cultura de origem'', explica, lembrando que foi por meio da preservação e da divulgação que, hoje, muitos elementos da cultura japonesa já fazem parte do cotidiano local, como a culinária e a prática de artes marciais como o judô e o karatê.
Comunicativo e muito falante, característica adotada dos brasileiros, Egashira se contém ao conversar com japoneses para se adequar ao modo de ser deles. Ele é católico, mas já participou da criação do grupo de jovens da igreja budista. E acredita que a adoção de elementos das duas culturas, valorizando o melhor de cada uma, contribui para desenvolver a sociedade.
''Preservar as tradições não quer dizer a pessoa se tornar japonês, mas ser brasileiro e ter esse conhecimento a mais sobre a cultura de seus antepassados. Tem gente que diz que não sabe se é brasileiro ou japonês. Eu digo que é uma pessoa privilegiada e pode se orgulhar por ser nipo-brasileiro, ou seja, as duas coisas ao mesmo tempo.''

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