Ney de Souza/Folha de LondrinaNova vidaRaimundo Ramos dos Santos, hoje sacoleiro: demitido da Itaipu em 1987, não conseguiu outro empregoQuinze anos depois de concluída a maior hidrelétrica do mundo, na fronteira entre Brasil e Paraguai, o desemprego jogou no contrabando e na informalidade uma categoria especial de trabalhadores. São os ‘‘órfãos de Itaipu’’, operários que migraram de todas as regiões do País para Foz do Iguaçu com o objetivo de trabalhar nas obras da usina.
Com pouca qualificação profissional e idade geralmente acima dos 30 anos, a maioria desses trabalhadores não conseguiu mais colocação no mercado de trabalho depois que foi demitida, com a conclusão da barragem da hidrelétrica, em 1982. Sobraram para eles, na melhor das hipóteses, as atividades de ‘‘laranja’’, sacoleiro ou camelô. Os ‘‘mal-sucedidos’’ não têm hoje qualquer atividade produtiva.
Na fronteira mais movimentada da América do Sul, ‘‘laranja’’ é a gíria pela qual são conhecidas as pessoas que são pagas por outras - geralmente sacoleiros ou comerciantes de grandes capitais brasileiras - para cruzar a Ponte da Amizade, entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, com mercadorias compradas no Paraguai. O artifício é usado para burlar a fiscalização da Receita Federal e não extrapolar formalmente a cota de importação com isenção de impostos, atualmente fixada em US$ 150,00.
Segundo estimativa da Associação Brasileira dos Sacoleiros (ABS), sediada em Foz do Iguaçu, entre 5 mil e 6 mil ex-operários de Itaipu sobrevivem hoje como laranjas, sacoleiros ou camelôs. ‘‘Foi a única opção que sobrou para eles’’, afirma o fundador e atual presidente da entidade, Raimundo Ramos dos Santos, 38 anos, ele próprio um ‘‘órfão de Itaipu’’.
Depois de trabalhar sete anos como armador de ferragens no consórcio de empreiteiras que construiu a hidrelétrica, Santos, um baiano que migrou para Foz com a família em 1981, foi demitido em 87 e nunca mais conseguiu outro emprego. Tentou abrir uma pequena loja - que faliu com o Plano Collor, em 90 -, virou sacoleiro e hoje tem uma banca com mercadorias do Paraguai no centro da cidade.
Ney de SouzaDreher: é laranja para sobreviver
No auge da construção da hidrelétrica, entre 1979 e 81, os dois consórcios de empreiteiras responsáveis pela ‘‘obra do século’’ empregaram entre 37 mil e 40 mil trabalhadores. Do lado brasileiro, o consórcio Unicon reunia as cinco maiores construtoras do País: Mendes Júnior, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, CBPO e Setenco. O consórcio Conenpa, responsável por uma parte das obras, era formado por seis empreiteiras paraguaias.
Atualmente, o lado brasileiro da binacional emprega apenas 1.800 trabalhadores e a meta é reduzir esse número para 1.500 até 1998. ‘‘Parte dessa mão-de-obra foi absorvida pelo pólo exportador, que se desenvolveu em Foz em meados da década de 80, e outra parte conseguiu emprego na construção civil, que sofreu um grande salto também nesse período’’, analisa o matemático e sociólogo Luiz Carlos Kossar, diretor do Departamento Municipal de Informações Institucionais. ‘‘Mas o restante não teve opção e caiu na informalidade.’
Na última quinta-feira, em menos de uma hora de procura pelas movimentadas galerias comerciais de Ciudad del Este, a Folha conseguiu localizar alguns exemplos vivos dessa situação: trabalhadores que ajudaram a construir a hidrelétrica e, com a demissão, viraram laranjas depois não conseguir outro emprego.
‘‘Eu e seis dos meus nove filhos estamos trabalhando como laranjas’’, revelou o mestre-de-obras Oscar Dreher, 57 anos, que atuou seis anos na construção da usina. Dreher mudou-se de São Miguel do Iguaçu (45 quilômetros ao norte de Foz), atraído pela oferta de emprego. ‘‘Hoje estamos nessa vida para sobreviver’’, disse Dreher.
‘‘Eu tinha conta em banco e cheque e hoje só tenho dívidas’’, ironizou o segurança João Oliveira de Souza, 41 anos que, entre 1975 e 77, trabalhou na Itaipu e nunca mais conseguiu emprego fixo. ‘‘Tentei a vida como sacoleiro, mas há um ano e meio virei laranja.’
Ney de SouzaSouza: no máximo R$ 200 por mês
Souza trabalha para um ‘‘patrão’’ (comprista que atua com laranjas fixos) e ganha, no máximo, R$ 200,00 por mês. Como segurança na hidrelétrica, recebia o triplo desse valor - aproximadamente seis salários mínimos (hoje R$ 672,00). Seu ‘‘patrão’’ é um comerciante de Caruaru, que busca mercadorias no Paraguai a cada 15 dias.
Na opinião de um ex-funcionário da hidrelétrica que migrou de Cuiabá (MT) e não quis se identificar, atualmente está havendo muita concorrência entre os laranjas. ‘‘Antes dava para tirar R$ 100,00 por dia, mas agora não passa de R$ 200,00 por mês’’, reclamou.

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