Órfãos da Aids têm ‘‘mães postiças’’
Instituição abriga
22 crianças sem pais
e é único referencial
de afeto delas
A microempresária Amélia Chedid é a ‘‘mãezona’’ das 22 crianças que vivem atualmente na Morada do Sol, instituição mantida pela Associação Curitibana de Órfãos da Aids (Acoa), em Curitiba. É dela a responsabilidade de ser o referencial de afeto mais próximo que aquelas crianças já tiveram depois de terem sido abandonadas pelos pais verdadeiros. É ela, por exemplo, que ganha os maiores ovos das cestas de Páscoa que a crianças recebem de presente, e os abraços mais fortes que elas podem dar num dia como hoje. ‘‘Até os mais pequeninhos procuram me agradar, me oferecendo o que têm de melhor’’, conta.
Fundadora da Acoa, Amélia é uma das muitas ‘‘mães postiças’’ que fazem das instituições de apoio às crianças a sua segunda casa. A ligação é tão grande que, assim como as mães mais dedicadas, ela se levanta no meio da noite quando recebe a notícia de que alguma criança está passando mal. ‘‘Não importa a hora em que me telefonam: eu levanto, pego o carro e vou lá ver o que está acontecendo’’, diz.
A convivência diária com crianças que tiveram seus pais vitimados pela Aids, muitas delas também portadoras do vírus, é vista por Amélia como uma responsabilidade social. ‘‘É difícil substituir a verdadeira mãe, mas todos nós devemos ao menos tentar fazer isto de alguma forma’’, diz. Das crianças que já passaram pela Morada do Sol, duas morreram de Aids e uma foi adotada. Outras ganharam peso, vida e em nada lembram as crianças maltratadas que chegaram lá. ‘‘É nestas horas que a gente percebe como o amor é importante’’, afirma.
Para os psicólogos, no entanto, dificilmente as relações de afeto existentes dentro de uma instituição podem substituir o papel materno. ‘‘Nas instituições, as crianças são obrigadas a dividir o carinho com muita gente, e por isso não conseguem se sentir alvo de um afeto especial’’, afirma a psicóloga especialista em comportamento infantil Lídia Dobrianskyj Weber. Esta dificuldade, segundo ela, é a maior responsável pelos problemas de relacionamento destas crianças quando adultas. ‘‘Por melhor que seja o lugar onde esta criança está, nada pode substituir o amor de uma família’’, diz.(C.P.)

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