Orelhões cada vez mais ociosos
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Londrina A vista cansada e a falta de intimidade com a tecnologia tornaram o aposentado Manoel Bezerra da Nóbrega, de 80 anos, um excluído digital. Ele faz parte de um nicho da população não atingido pela inclusão proporcionada pelos smartphones nos últimos anos. Para Nóbrega, mais conhecido como seo Paraíba, sinônimo de telefone na rua ainda é o orelhão. "Uso todos os dias. Consigo falar e ser ouvido, para mim é o que importa", simplificou.
Nóbrega faz parte de uma pequena parcela que utiliza exclusivamente os telefones públicos. De acordo com dados da Sercomtel, o uso dos orelhões em Londrina diminuiu 90% em seis anos. Em 2007, o consumo foi de 56,2 milhões de créditos, contra apenas 5,6 milhões em 2013. A companhia, que ainda fecha os dados do ano passado, adianta que a tendência de queda deverá ser mantida. Com a mudança dos hábitos, o número de aparelhos diminuiu de 4,1 mil para 3,4 mil no mesmo período.
Mesmo com a redução, a proporção de seis aparelhos por 100 mil habitantes ainda é superior que a exigida pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), de quatro por 100 mil. O uso mais frequente dos orelhões se restringe a áreas de maior movimentação, como o Calçadão, e as proximidades de hospitais e postos de saúde. Na maioria dos lugares, no entanto, os orelhões ficam, literalmente, às moscas. O monitoramento da Sercomtel aponta que alguns aparelhos já chegaram a ficar 30 dias sem uso.
A comodidade do celular e as promoções oferecidas pelas operadoras de telefonia móvel tornam difícil a viabilidade dos amarelinhos. As cabines vermelhas em estilo inglês ainda são as mais procuradas, mais pelo cenário das fotos do que pelas ligações.
Andar pelo Calçadão e passar incólume ao exército de moças a oferecer chips e bônus para celulares é tarefa quase impossível. A zeladora Márcia Aparecida da Silva, de 56 anos, comprou dois chips para presentear os netos, crianças tecnológicas que nunca usaram um cartão telefônico de 20 unidades ou sequer sabem o que a expressão "cair a ficha" quer dizer. "Eu ainda uso os orelhões quando estou sem crédito ou acaba a bateria do celular, mas os mais novos nem sabem como funciona", contou.
Para o pedreiro Aleandres do Prado, de 27 anos, que mora no Distrito de Guaravera (zona sul de Londrina), o orelhão ainda é essencial. "Lá o sinal do celular é inferior ao da cidade e os problemas não são raros. Então, muita gente ainda usa o orelhão", comentou.
O advogado João Paulo Machado Rocha, de 27 anos, conta nos dedos as vezes que precisou utilizar um orelhão. A rotina de trabalho exige que ele permaneça sempre conectado com seu smartphone. Mesmo sendo um usuário esporádico, Rocha defende que os aparelhos sejam mantidos. "É importante que os orelhões estejam à disposição. Podem ser úteis em uma situação de emergência, por exemplo", opinou.
As vantagens do mundo virtual não fazem falta para o seo Paraíba, que viu os primeiros orelhões serem instalados na cidade. Saudosista, ele lembra do "tempo das fichas", relacionando vantagens e desvantagens. "Antes tinha fila pra usar um orelhão. O povo segurava as cartelas de fichas que pareciam remédios. Naquela espera, surgiam amizades, namoros. Hoje, o mundo está muito individualista", analisou.


