Oração, técnica e esforço salvam jovem
Paulo Ubiratan
Londrina
Gritos na rua, frases indignadas no meio da multidão e M.R., uma menina de 16 anos que ameaçava se jogar do topo de um prédio de 13 andares, marcaram um pedaço da tarde de ontem em uma área do centro de Londrina. O conjunto das cenas, que teve início pouco antes das 16 horas, criou expectativas e preocupações. Como num filme de suspense, fez pais de jovens refletirem momentaneamente sobre suas relações com os filhos.
Mas também desmascarou o outro lado da sede humana. Houve quem gritasse, quando passava de carro pelo local: Pula, pula, pula... E deixou lições, ensinadas por três soldados do Corpo de Bombeiros e três da Polícia Militar, que contaram com a ajuda de um pastor. Eles dialogaram com a garota por cerca de uma hora e conseguiram salvá-la da tentativa de suicídio.
A batalha dos soldados e do pastor foi testemunhada por cerca de 300 pessoas. Cada movimento que a menina empunhando um telefone celular fazia no parapeito do prédio, com apenas 25 centímetros de largura, arrancava suspiros e gritos de pavor dos curiosos. Pelo celular os soldados conseguiram contato com a menina, mas ela não se rendia aos pedidos para que desistisse da idéia, conforme relatou depois do salvamento o sargento Antonio Rubbo.
A todo momento ela dizia que iria se jogar. Estávamos diante de uma tragédia eminente e nada poderia sair errado. Não consigo nem imaginar aquela menina se jogando do prédio e a agente sem poder fazer nada. Se caso ocorresse a tragédia eu ficaria sempre com aquela suspeita de ter errado em alguma coisa. Sentiria remorso. O sargento chegou a telefonar para a sua esposa, pedindo que ela orasse para que a operação tivesse sucesso. Ele disse que está acostumado a prender suspeitos de crimes, mas diante de uma jovem que tentava se jogar de um prédio percebeu ser dominado por um sentimento de pavor e certa importência.
O cabo do Corpo de Bombeiros Rogério Dutra de Oliveira, que conseguiu agarrar M.R. por trás e puxá-la do parapeito, escalou uma parede de cerca de três metros de altura, usando cordas e uma escada, até chegar ao local onde a menina estava. Foi Deus que salvou esta menina. Eu apenas fui um instrumento Dele, pois apesar das dificuldades que encontramos conseguimos chegar até ela e tirá-la daquela situação, disse em seguida, ainda emocionado.
Enquanto Oliveira escalava a parede, o cabo da Policia Militar, Sara Arantes, conversava com a jovem para mantê-la distraída. O sargento Antonio Rubbo balançava os coqueiros plantados em volta da piscina, na cobertura do prédio, para dar a impressão que ventava e com o barulho disfarçar os movimentos de Oliveira. Além das conversas pelo celular, a equipe de salvamento conseguiu enviar para a menina uma folha de papel e uma caneta, para que ela escrevesse uma carta aos familiares explicando o seu ato. Foi também uma forma de manter M.R. ocupada, de evitar uma possível tragédia.
Embaixo, o pastor Clóvis Galvão, que passava pelo local, pediu para subir até junto do policiais e orou: Nada fiz a não ser evocar Deus e transmitir à menina alguma coisa boa e cheia de esperança. Oração, barulho, conversa e técnica, juntos, acabaram com o drama. Pouco antes das 17 horas, cabo Oliveira agarrou M.R. por trás e a arrancou do parapeito.
Somos humanos e depois de cada história temos o direito de chorar se for o caso, desabafou chorando o cabo Sara Arantes. Ela não entendia como uma menina tão bonita e rica poderia desejar praticar aquele ato. O outro bombeiro e o outro policial militar que ajudaram na retaguarda do resgate da jovem sairam anonimamente do prédio após a missão e não quiseram falar sobre o caso. O médico do Siate, Alberto Toshio Oba, acompanhou o resgate e atendeu a menina. Segundo ele, ela estava em estado de choque e teria que passar por uma avaliação psicológica.Soldados conseguem evitar que adolescente se jogasse do 13º andar de prédio no centro de Londrina; pastor recorreu à oração
Fotos César Augusto e Josoé de CarvalhoFotos César Augusto e Josoé de CarvalhoFotos César Augusto e Josoé de CarvalhoFotos César Augusto e Josoé de CarvalhoESFORÇO CONJUNTOCabo Oliveira (ao lado) conseguiu segurar a menina, no parapeito; acima, cabo Sara Arantes, que acalmou M.R. pelo celular; acima, à esquerda, o prédio de 13 andares, palco de uma cena triste; acima, à direita, M.R. caminha no parapeito





