Silvio Alessandro de Souza, 33 anos, é um motorista quase exemplar. Dez anos de estradas, nunca sofreu um acidente e diz que nunca usou nenhuma substância para aguentar as longas horas de trabalho. O único ''pecado'' é já ter feito jornadas de 18 horas. Dirigindo um bi-trem de quase 60 toneladas, ele reclama dos motoristas de veículos leves que não compreendem bem o mecanismo do seu caminhão e cometem imprudências acreditando que ele deva frear da mesma forma que um pequeno carro de passeio.
O trabalho lhe permitiu comprar uma casa, um carro e cuidar da família. Ele acredita que o pior da profissão é a saudade que sente ao passar até 30 dias longe de casa, especialmente do neném de três anos que não desgruda de Silvio quando ele está em casa. A melhor lembrança da estrada foi o dia em que ajudou a resgatar um bebê de um carro capotado na BR-101, próximo a Joinville (SC).
José (nome fictício), 53 anos, não esquece a paixão pela boléia e ainda sonha com a compra de um caminhão, mas, depois de seis anos longe das rodovias, tem consciência de que foi um período muito difícil em sua vida. Funcionário de uma transportadora, ele chegou a ficar oito dias sem dormir, na base do ''rebite'' (anfetaminas). ''Tomava 14 comprimidos de uma só vez e depois mais dois a cada duas horas. Quando deitava para dormir, ficava até 50 horas direto sem abrir os olhos'', conta. Alguns colegas também apelam para a cocaína, pelo mesmo motivo.
O motorista, que diz nunca ter se envolvido em acidentes por pura sorte, lembra que ficava com a audição aguçada. ''Ouvia cada barulho aumentado absurdamente. Tive muitos amigos que morreram nas estradas, outros que não conseguem mais dormir''. José teve depressão profunda depois que deixou o trabalho, chegou a ficar dois anos sem sair de casa. Ele ainda sofre com o diabetes, pressão alta e o sistema nervoso afetado. ''Tudo isso mexeu muito com a minha família. Eu simplesmente não tinha mais vontade de viver. Todos fizemos tratamento psicológico''.
Ele agora trabalha em uma organização não-governamental (ONG) que luta por melhores condições de trabalho para a categoria. Questionado se os patrões sabiam que ele e os colegas usavam substâncias ilegais para aguentar a jornada, ele responde: ''Era meu patrão quem me dava os comprimidos''. (M.R.M.)

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